terça-feira, 24 de novembro de 2009

Do sagrado

Mas a detracção daqueles a quem amamos sempre nos separa um pouco deles. Não se deve mexer nos ídolos: o dourado fica-nos agarrado às mãos.

Gustave Flaubert, Madame Bovary

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Apoio

Ando a ler uma tradução francesa de um livro italiano.
Nunca li tantas vezes a palavra soutien.
Já agora, e para prevenir qualquer equívoco, o livro é sobre Pedagogia Intercultural.

domingo, 15 de novembro de 2009

Abrir perspectivas (a todos), por Lévi-Strauss


Falecido recentemente, Claude Lévi-Strauss deixou um poderoso legado. Em dois dos seus artigos, publicados originalmente no The UNESCO Courier*, discorreu acerca da responsabilidade social da ciência em abrir perspectivas à humanidade. A toda a humanidade.
The efforts of science should not only enable mankind to surpass itself; they must also help those who lag behind to catch up. (1951)

The contribution of our sciences will be evaluated, not using dubious methods that are subject to the whims of the day, but according to the new perspectives that they will be able to open to humanity, so that it may better understand its own nature and its history, and therefore also judge it. (1956)

*Re-editados em número especial do The UNESCO Courier, em atempada homenagem sob o título Claude Lévy-Strauss: The view from afar (2008, nº 5)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Opacidades

Mesquita Machado, re-eleito Presidente da Câmara Municipal de Braga, foi entrevistado por Fernando Esteves e Nuno Tiago Pinto para a revista Sábado. Foi uma entrevista belicosa, feita de opacidades, não fosse a frase "Não me pronuncio sobre isso" aquela que mais vezes foi regurgitada pelo autarca. O remate será, muito provavelmente, a minha parte preferida:
Continua a jogar muito à sueca?
Isso é um problema meu, pá. Faz parte dos meus vícios.
Ainda joga todos os dias?
Como é que podia? Sempre que posso jogo uma ou duas vezes por semana.
Nunca teve a tentação de fazer batota?
Não. Nunca gostei de fazer batota na vida.
Provavelmente, Sr. Presidente, o carácter enfático da resposta não passará de outra forma de opacidade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Epifania

Emma vivia encarcerada num casamento, cirandando entre ideais de burguesia faustosa e uma profunda melancolia (Não sei se quero morrer se quero ir para Paris). Ao conhecer Léon, não o reconhece. Até ao dia.

O amor, segundo acreditava, devia surgir de repente, com grande tumulto e fulgurações - tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo o coração inteiro. Não sabia que, nos terraços das casas, a chuva forma lagos quando as goteiras estão entupidas, e assim vivia confiada na sua segurança, quando subitamente descobriu uma fenda na parede.

Gustave Flaubert, Madame Bovary

domingo, 8 de novembro de 2009

Por Coimbra


Ontem estive por Coimbra, na Fundação Bissaya Barreto, para falar um pouco e ouvir bastante mais. Pelo convite, obrigada à Lúcia. Pela prenda, obrigada à Inês, a criadora de 5 anos. Esta risonha policromia já valeu o desgaste do dia.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Aplausos

Aqui é lindo, as pombas batem palmas quando levantam voo.

sábado, 31 de outubro de 2009

Gafe diplomática

Mia Couto, em entrevista ao Folha de S. Paulo:

E por quê o apelido "Mia"?
MC: Por causa dos gatos. Eu era miúdo, tinha dois ou três anos e pensava que era um gato, comia com os gatos. Meus pais tinham que me puxar para o lado e me dizer que eu não era um gato. E isto ficou. Eu, lá fora, sou sempre esperado como preto ou como mulher.
Certa vez, numa delegação de Samora Machel, que foi daqui visitar Fidel Castro, eu fui o único homem na vida a quem Fidel Castro deu saias e colares e brincos, pensando que eu era mulher.

Posso adiantar que, depois de o ter visto recentemente na Centésima Página, a apresentar o Jesusalém, saias e colares não combinam, definitivamente, com este senhor.
E agora que já parei de rir, vou ali dedicar-me a umas notas de campo que necessitam ser analissecadas. E que tal esta, Emílio? Fraquita, não? Pois. O melhor será continuar a dedicar-me às teses, certo? Pois.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

S&S


Somos manas, nossa alma está separada apenas por um corpo.

Mia Couto, Dois Corações, Uma Caligrafia, em Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Mãe por Mia

Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.
Mia Couto, O Menino no Sapatinho, em Na Berma de Nenhuma Estrada e Outros Contos