Pressinto a Primavera. Apesar de o estado do tempo nos confundir, ela faz-se anunciar. E isso é mesmo ouro sobre azul! No caso da imagem anexa, de uma forma razoavelmente literal.
terça-feira, 9 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010
Como a água
A primeira vez que soube que a minha mãe estava doente foi quando o meu pai atirou o peixe de volta ao mar. Nessa noite, ficámos com fome. “Para compreendermos o vazio”, disse-nos ele. A mãe sempre disse que a minha irmã Satsu era como a madeira. Tão enraizada na terra como uma árvore "Sakura". Mas disse-me que eu era como a água. A água sulca o seu caminho, mesmo através da pedra. E, se depara com um obstáculo, a água encontra um novo caminho.
quarta-feira, 3 de março de 2010
You Are Welcome to Elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny de Vasconcelos
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny de Vasconcelos
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Da ignorância*
Este excerto foi-me enviado pela E., em jeito de desabafo. Por traduzir uma verdade inalienável, cá fica.
Quanto mais aprendemos sobre o mundo, quanto mais profundo o nosso conhecimento, mais específico, consistente e articulado será o nosso conhecimento do que ignoramos - o conhecimento da nossa ignorância. Essa, com efeito, é a principal fonte da nossa ignorância: o facto de que o nosso conhecimento só pode ser finito, mas a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância.
Quanto mais aprendemos sobre o mundo, quanto mais profundo o nosso conhecimento, mais específico, consistente e articulado será o nosso conhecimento do que ignoramos - o conhecimento da nossa ignorância. Essa, com efeito, é a principal fonte da nossa ignorância: o facto de que o nosso conhecimento só pode ser finito, mas a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância.
Karl Popper, em As Origens do Conhecimento e da Ignorância
*Pensando bem, o título deste post também poderia ser "Da necessária humildade"...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Do encantamento e da destruição
Ainda há poucos dias ali estive, entre as águas, deslumbrada com aquela versão de paraíso tangível. Quando as primeiras notícias da tragédia me chegaram, carregaram consigo a incredulidade. Na minha mente, a convivência entre imagens de encantamento e de destruição tornou-se árdua. Não me conseguia libertar do que tinha imprimido cá dentro, para deixar este dilúvio entrar. O movimento da alegria à desolação é duro e não isento de dissonâncias. Creio que, neste caso, o movimento inverso, de reconstrução da alegria a partir do caos, também não será fácil. Mas já me asseguraram que os madeirenses reagirão. Conheço uma que já arregaçou as mangas e que já iniciou o seu apelo:
http://passosdailha.blogspot.com/2010/02/o-desaire-da-natureza.html
http://passosdailha.blogspot.com/2010/02/o-desaire-da-natureza.html
Que o encantamento suplante a destruição, desde já, sob a forma de esperança e que permita muito brevemente “passos” seguros.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Os músicos
Aproveitei o atraso da boleia e fui espreitá-la. Contudo, desta vez não foi a sua grandiosidade geométrica que mais captou a minha atenção. Foi a chegada dos músicos. De vários pontos, convergiam para esta caixa de música gigantesca, carregando os seus estojos multiformes. Iriam ensaiar, pensei. E não pude evitar a vontade de entrar e assistir ao destilar de emoções a partir daqueles que os estojos ciosamente resguardavam. Que belo início de dia seria.
À falta de som, ficou a imagem.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Meditativos
Exactamente como nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado, meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos homens mais pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhes evidenciar os defeitos de fabrico.
Miguel Torga, Teia de Aranha, em Novos Contos da Montanha
sábado, 13 de fevereiro de 2010
L' Appuntamento
Esta música foi-me apresentada pelo meu amigo H. durante uma viagem entre Covilhã e Braga, ainda nos tempos da antiga IP5. Eu ao volante, ele com o meu portátil a tiracolo, a enfiar todo o tipo de adereços digitais nas entranhas do bicho. Antes de accionar o Play dissera-me que esta canção de Ornella Vanoni fazia parte da banda sonora do Ocean's Twelve. Eu não gostara muito do filme e, mesmo perante o seu evidente entusiasmo, fiquei reticente. Não por muito tempo. De repente, esta voz invadiu o habitáculo, os ouvidos estacaram e a alma expandiu. Più bella!
Para relembrar que, mesmo nos recantos mais inusitados, é possível encontrar maravilhas.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Entre as águas
Ali, entre as águas, tive um vislumbre do paraíso. O verde luxuriante, a imponência majestática das formações rochosas, o mar omnipresente, a temperatura primaveril. O nosso corpo e mente, habituados a meses de frio inclemente, questionam espaço e tempo: Estamos mesmo em Portugal? Continuamos no Inverno?
Creio bem que esta ideia de paraíso também sobreveio pela presença constante de um Anjo. A A., minha amiga e guia, foi incansável na criação de momentos memoráveis. Acho que na nossa história de aventuras conjuntas terão honras de destaque a travessia temerária do Paúl da Serra, Encumeada e Serra d' Água, bem como aquela Festa dos Compadres, em Santana, onde arriscámos o petisco local: espetada em pau de loureiro, preparada (e defumada!) em fogareiro comunitário e irmanada com o imprescindível bolo do caco.
A fruição estética da natureza e a fruição de uma amizade compuseram a perfeição destes dias. Porque são certamente duas das coisas que mais nos aproximarão de uma certa ideia de paraíso tangível.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Ausência de vida
Bastas vezes, a sua fábula foi dedicada à desilusão que se segue a cada obra humana. Parecia que pretendia consolar-se da própria ausência de vida dizendo: estou bem eu que não faço, pois não falho.
Italo Svevo, Um Embuste Perfeito
Subscrever:
Mensagens (Atom)





