quarta-feira, 17 de março de 2010

Reflexos

Um romance é um espelho que se passeia ao longo de uma estrada. Tão depressa reflecte aos nossos olhos o azul dos céus como a lama dos lamaçais da estrada.

Stendhal, O Vermelho e o Negro

domingo, 14 de março de 2010

(Multi)sensorial




Hoje foi dia de passeio, ali para os lados de Ponte de Lima. Foi dia de apreciar o sol. As cores. As texturas. Foi dia para desentorpecer os sentidos, penalizados por tantas paredes que os encerram e os subalternizam. Foi dia de repôr, mesmo que por um curto espaço de tempo, uma certa ordem natural das coisas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Pescoço (demasiado) longo

[surripiada daqui]
Estas imagens, e os conceitos a elas associados, fizeram-me lembrar um poema de Loris Malaguzzi, um psicólogo e pedagogo italiano que aprecio muito. Começa assim:
A girafa tem o coração longe dos pensamentos
Apaixonou-se ontem e ainda não sabe...

terça-feira, 9 de março de 2010

Ouro sobre azul

Asprela, Porto

Pressinto a Primavera. Apesar de o estado do tempo nos confundir, ela faz-se anunciar. E isso é mesmo ouro sobre azul! No caso da imagem anexa, de uma forma razoavelmente literal.

sábado, 6 de março de 2010

Como a água

Memórias de Uma Gueixa (2005), de Rob Marshall

A primeira vez que soube que a minha mãe estava doente foi quando o meu pai atirou o peixe de volta ao mar. Nessa noite, ficámos com fome. “Para compreendermos o vazio”, disse-nos ele. A mãe sempre disse que a minha irmã Satsu era como a madeira. Tão enraizada na terra como uma árvore "Sakura". Mas disse-me que eu era como a água. A água sulca o seu caminho, mesmo através da pedra. E, se depara com um obstáculo, a água encontra um novo caminho.

quarta-feira, 3 de março de 2010

You Are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny de Vasconcelos

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Da ignorância*

Este excerto foi-me enviado pela E., em jeito de desabafo. Por traduzir uma verdade inalienável, cá fica.

Quanto mais aprendemos sobre o mundo, quanto mais profundo o nosso conhecimento, mais específico, consistente e articulado será o nosso conhecimento do que ignoramos - o conhecimento da nossa ignorância. Essa, com efeito, é a principal fonte da nossa ignorância: o facto de que o nosso conhecimento só pode ser finito, mas a nossa ignorância deve necessariamente ser infinita. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que diz respeito aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância.
Karl Popper, em As Origens do Conhecimento e da Ignorância
*Pensando bem, o título deste post também poderia ser "Da necessária humildade"...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Do encantamento e da destruição

Ainda há poucos dias ali estive, entre as águas, deslumbrada com aquela versão de paraíso tangível. Quando as primeiras notícias da tragédia me chegaram, carregaram consigo a incredulidade. Na minha mente, a convivência entre imagens de encantamento e de destruição tornou-se árdua. Não me conseguia libertar do que tinha imprimido cá dentro, para deixar este dilúvio entrar. O movimento da alegria à desolação é duro e não isento de dissonâncias. Creio que, neste caso, o movimento inverso, de reconstrução da alegria a partir do caos, também não será fácil. Mas já me asseguraram que os madeirenses reagirão. Conheço uma que já arregaçou as mangas e que já iniciou o seu apelo:
http://passosdailha.blogspot.com/2010/02/o-desaire-da-natureza.html
Que o encantamento suplante a destruição, desde já, sob a forma de esperança e que permita muito brevemente “passos” seguros.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os músicos

Casa da Música, Porto

Aproveitei o atraso da boleia e fui espreitá-la. Contudo, desta vez não foi a sua grandiosidade geométrica que mais captou a minha atenção. Foi a chegada dos músicos. De vários pontos, convergiam para esta caixa de música gigantesca, carregando os seus estojos multiformes. Iriam ensaiar, pensei. E não pude evitar a vontade de entrar e assistir ao destilar de emoções a partir daqueles que os estojos ciosamente resguardavam. Que belo início de dia seria.
À falta de som, ficou a imagem.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Meditativos

Exactamente como nas leiras, onde a gente vê semanas a fio o mesmo pé de milho parado, meditativo, enigmático, a aloirar encobertamente a sua espiga, assim nos homens mais pasmados, mais lentos e mais metidos consigo, anda às vezes uma resolução secreta a criar e a amadurecer. E saem obras tão perfeitas destas meditações, tão acabadas na concepção e na forma, que só o dedo da providência, porque aponta do céu, é capaz de lhes evidenciar os defeitos de fabrico.

Miguel Torga, Teia de Aranha, em Novos Contos da Montanha