Dizer que um homem não tem escrúpulos implica que esse homem nasceu com escrúpulos e agora decidiu pô-los de parte. Mas pode conceber-se um homem manifestamente “nascido” sem consciência? Um homem “nascido” sem as faculdades ordinárias da alma? (…) Há homens cujos sentimentos se vaporizam em neblina, como se fossem premidos por um vaporizador; aqueles que os congelaram – “agulhas e alfinetes de coração”; outros nasceram sem a noção dos valores, os agora afectados de daltonismo moral. Os muito poderosos são assim frequentemente (…)
Na edição portuguesa da revista Intelligent Life surge um artigo de Laura Barton que analisa a ligação profunda de Mark Twain ao Mississippi, convenientemente intitulado Uma Vida e Um Rio. Dentre os vários pormenores biográficos, achei curioso aquele que revela o surgimento do pseudónimo do escritor, que espelha a força dessa ligação. Cá vai:
(...) Twain regressou a Hannibal e tirou o curso de piloto de barcos a vapor, tendo estudado cerca de 3200 quilómetros de rio antes de ter obtido a licença, em 1859. Conhecia aquelas águas como as palmas das mãos; adorava-as e elas davam-lhe segurança e inspiração. Até o seu pseudónimo de escritor foi tirado da terminologia dos barcos fluviais – o grito dos barqueiros, “mark twain!”, significava que a água tinha duas braças de profundidade e era seguro continuar.
A palavra "cerca" poderá ser associada, com grande probabilidade, a outras, próximas: limite, fronteira, circunscrição. Mas tenho que vos falar de uma "Cerca" que ultrapassa estas lógicas semânticas para, no meu dicionário emocional, se associar a palavras como evasão, continuidade ou união.
"A Cerca", com mérito de maiúscula, porque há muito resgatou o próprio do comum.
Deu um passo em frente e preparava-se para estender a mão quando descobriu que ao vestir aquele uniforme tudo tinha mudado. Apoderou-se bruscamente dele um sentimento de solidão, compreendendo que na sua qualidade de embaixador devia renunciar para sempre à amizade dos seres humanos vulgares em troca da sua “déférence”. O uniforme isolava-o do mundo como uma armadura de aço. “Senhor - pensou ele -, passarei a vida a solicitar uma reacção humana normal das pessoas que devem deferência ao meu “posto”! Vou tornar-me como aquele horrível vigário do Sussex que praguejava sempre em voz baixa para provar a si próprio que era ainda um ser humano a despeito da coleira!”
Este tema já foi cantado por várias vozes, incluindo Shirley Bassey, Nat King Cole, Sarah Vaughan, Judy Garland, Frank Sinatra, Barbra Streisand, Rod Stewart ou Norah Jones. Também Amália já o cantou. Apesar de não conhecer todas as versões, esta continua, para mim, a ser praticamente insuperável.
Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, The Nearness of You
Nada pode igualar a euforia do melancólico quando a alegria chega. Mas antes que lhe seja permitido chegar, esta tem que manter um assédio ao seu coração fatigado. Deixa-me entrar, mia ela, ruge ela. O coração tem que ser forçado.
O carro passava lentamente pelo estômago da máquina de lavar e eu lá dentro, a tentar distrair a ligeira claustrofobia mudando o CD. Quando abri a caixinha transparente, descobri, serenamente poisado no seu interior, o poema que o meu amigo lá deixara. O meu amigo tem que me desculpar a distracção, não tinha reparado nele antes. Mas o meu amigo tem que saber que fiquei maravilhada com a descoberta, muito mais do que se tivesse achado 80 escudos :)
Obrigada por mais esta prenda talhada em verso.
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e só entram nos meus versos as coisas de que gosto o vento das árvores o vento dos cabelos o vento do inverno o vento do verão o vento é o melhor veículo que conheço só ele traz o perfume das flores só ele traz a música que jaz à beira-mar em agosto mas só hoje soube verdadeiramente o valor do vento o vento actualmente vale oitenta escudos partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto