Antigamente, antes da invasão, raras vezes pensei em observar a sentinela do Arsenal: (…) era o seu andar, o seu derreado de ombros que me impressionavam… era a moleza lenta do passo, uma expressão contínua e evidente de tédio e de fadiga; (…) E esta visão do nosso soldado parece-me então alargar-se e abranger toda a cidade, todo o País! Foi esta sonolência lúgubre, este tédio, esta falta de decisão, de energia, esta indiferença cínica, este relaxamento da vontade, creio, que nos perderam…
Ainda hoje me soam aos ouvidos as acusações tantas vezes repetidas do tempo da luta: não tínhamos exército, nem esquadra, nem artilharia, nem defesas, nem armas!... Qual! O que não tínhamos era almas… Era isso que estava morto, apagado, adormecido, desnacionalizado, inerte… E quando num Estado as almas estão envilecidas e gastas – o que resta pouco vale.
Eça de Queirós, A Catástrofe, em Contos