sexta-feira, 16 de julho de 2010

Do excesso

E era então que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do Ecclesiastes. Porque? Sem dúvida porque ambos esses pessimistas o confirmavam nas conclusões que ele tirava de uma experiência paciente e rigorosa, “que tudo é vaidade ou dor, que quanto mais se sabe, mais se pena, e que ter sido rei de Jerusalém e obtido os gozos todos na vida só leva a maior amargura…” Mas porque rolara assim a tão escura desilusão – o saudável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O velho escudeiro Grilo pretendia que “Sua Excelência sofria de fartura”.

Eça de Queirós, Civilização, em Contos, Bertrand Editora, 2008, p. 315

terça-feira, 13 de julho de 2010

Despojos

Vilarinho das Furnas, Parque Nacional da Peneda-Gerês

sábado, 10 de julho de 2010

Porque há espaços que nos ressuscitam


Vilarinho das Furnas, Parque Nacional Peneda-Gerês

Trânsito caprino

Carvalheira, Parque Nacional Peneda-Gerês

É costume dizer-se que para lá do Marão mandam os que lá estão. Ora, posso garantir que no Gerês se pode aplicar a mesma máxima. Por lá, mandam eles.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Armas? Não. Almas!

Antigamente, antes da invasão, raras vezes pensei em observar a sentinela do Arsenal: (…) era o seu andar, o seu derreado de ombros que me impressionavam… era a moleza lenta do passo, uma expressão contínua e evidente de tédio e de fadiga; (…) E esta visão do nosso soldado parece-me então alargar-se e abranger toda a cidade, todo o País! Foi esta sonolência lúgubre, este tédio, esta falta de decisão, de energia, esta indiferença cínica, este relaxamento da vontade, creio, que nos perderam…
Ainda hoje me soam aos ouvidos as acusações tantas vezes repetidas do tempo da luta: não tínhamos exército, nem esquadra, nem artilharia, nem defesas, nem armas!... Qual! O que não tínhamos era almas… Era isso que estava morto, apagado, adormecido, desnacionalizado, inerte… E quando num Estado as almas estão envilecidas e gastas – o que resta pouco vale.


Eça de Queirós, A Catástrofe, em Contos

sexta-feira, 2 de julho de 2010

MacChique

Algures, na Getreidegasse

Em Salzburgo, até os anúncios do comércio são sofisticados. Não resisti e cá trago o do Mac. E olhem que o da Zara não ficava nada atrás :-).

terça-feira, 29 de junho de 2010

240' em Salzburgo

240 preciosos minutos passados em Salzburgo, a apreciar a sua grandiosa e pitoresca beleza. 240 minutos passados a calcorrear a Getreidegasse pejada de turistas, a espreitar o seu famoso nº. 9, onde Mozart viu o mundo pela primeira vez, a percorrer o imenso Hohensalzburg Castle, a apreciar um pouco das margens do rio Salzach. Destes minutos, destacaria como mais luminosos aqueles passados entre o miradouro e o castelo, num percurso de um quilómetro pela mata, pontuado aqui e ali por um cenário de cortar a respiração. Este, o da fotografia.

E ali pelo meio, a lembrança: no mesmíssimo dia, no ano anterior, estava internada numa clínica, a recuperar de um ligeiro susto. A vida tem as suas graças. O que será que me estará reservado para o próximo ano? Talvez esteja a fazer o que é mais comum nos meus dias. Talvez porque a vida não é tipicamente vivida nos antípodas da experiência, entre uma cama de hospital ou um passeio em Salzburgo. Talvez a vida seja tão-somente feita de mediania. Talvez.

sábado, 26 de junho de 2010

Por terras da Alta Áustria

Linz não é uma cidade particularmente bonita, e foi uma decepção descobrir que o Danúbio, por estes lados, não é azul, mas castanho. O tempo também não ajudou, mantendo o cinzentismo durante os três dias que por lá estivemos. Ultrapassados estes pormenores, foi sempre a ganhar:
Uma comitiva portuguesa onde reinou o companheirismo e a boa disposição.
Uma equipa europeia com pessoas empenhadas, simpáticas e abertas a novas e diferentes perspectivas. E descobrir que, afinal, ninguém comunicou em inglês, mas noutra língua: o globish :-)
E não posso esquecer as tartes Linz, finalmente no original…
Não será uma cidade a que volte, para conhecer melhor. Mas deixou boas recordações.

Igreja de St. Ursula

A New Cathedral, ao fundo

Pormenor da Landstraße, a principal rua da cidade

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago, Imortal


(...) que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias de futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala (...)

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

terça-feira, 15 de junho de 2010

Absolute clarity


A few times in my life I've had moments of absolute clarity, when for a few brief seconds the silence drowns out the noise and I can feel rather than think, and things seem so sharp and the world seems so fresh. I can never make these moments last. I cling to them, but like everything, they fade. I have lived my life on these moments. They pull me back to the present, and I realize that everything is exactly the way it was meant to be.