quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Peçonha

Quando a mentira nos envenena o sangue, é um alívio cortar as veias e deixar correr a peçonha.

Miguel Torga, O Segredo, da obra Pedras Lavradas, integrada na colectânea Contos, Dom Quixote, p. 541
[um dos melhores contos que li até hoje]

sábado, 20 de novembro de 2010

Entardecer

O Norte já anda frio e cinzento e este brevíssimo “intervalo dourado” por terras algarvias, apreciando o astro-rei na sua jornada descendente, soube mesmo bem. Ali perto, iam-se acendendo outros sóis, pequeninos e luminosos, a suprirem temporariamente a ausência daquele que, na sua missão inexorável, deve servir a muitos.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Lá de cima

Nunca tinha aterrado em Faro. Daí a minha enorme surpresa quando, lá de cima, me apercebi da magnífica arquitectura da Ria Formosa, estendida em frente à cidade. Uma descoberta festejada de forma animada com o senhor-inglês-residente-em-França que viajava a meu lado e que aprendeu uma palavra em português, por efeito de merecida repetição: “Lindo!”



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Da verdade

Que enganadas estavam sempre as pessoas que diziam: é melhor conhecer o pior do que continuar sem saber nem uma coisa nem outra. Não, não, não. Percebiam tudo ao contrário. Diga-me a verdade, senhor doutor, prefiro saber. Mas só se a verdade for o que eu quero ouvir.

Kingsley Amis, Jim o Sortudo, Biblioteca Sábado, p. 74

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Do Terreiro da Sé

Tenho para mim que o Carlos Tê deveria andar ali para os lados do Terreiro da Sé quando escreveu a letra do Porto Sentido. Está lá tudo: o "velho casario que se estende até ao mar", os "lampiões tristes e sós" e, sobretudo, a "luz bela e sombria".


sábado, 30 de outubro de 2010

Tentação, parte II

Les Enfants du Siècle (1999), de Diane Kurys

O filme traz à cena a história do amor tormentoso entre George Sand e Alfred de Musset. Aquele que, desafiando as convenções sociais, não conseguiu escapar à devassa de demónios pessoais. Amor intenso, intranquilo, condenado. Semelhante, talvez, ao ser frágil das borboletas, lembrado num dos diálogos:

AM: É linda a vida da borboleta. Apenas uns dias e passam-nos a dançar.
GS: Para se queimarem, quer dizer.
AM: Elas têm razão. A vida é muito curta para se ser pequeno.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Tentação

The only way to get rid of a temptation is to yield to it. Resist it, and your soul grows sick with longing for the things it has forbidden to itself, with desire for what its monstrous laws have made monstrous and unlawful. It has been said that the great events of the world take place in the brain. It is in the brain only, that the great sins of the world take place also.

Oscar Wilde, The Picture of Dorian Gray, Penguin Books, 1994, p. 26

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Most boring city?

Quando lá voltei, no início de Setembro, as expectativas eram baixas, derivadas de uma primeira experiência que não deixou grandes impressões e reforçada por aquele artigo que a considerava a cidade mais aborrecida da Europa. Mas fui surpreendida e trouxe de lá uma nova perspectiva, mais positiva. Agora, já não direi taxativamente: “Não gosto de Birmingham”, mas avançarei com um: “Há por lá umas coisas que valem a pena.” Como diria alguém mais entendido nestas matérias, é bem provável que só à segunda tivesse começado a metabolizar a cidade.



1-Birmingham Museum and Art Gallery; 2 e 3 - Canais de Brindleyplace

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Clausura

Este é o tempo a que pomposamente chamo “clausura generativa”. Nesta fase, ganha mais sentido o que ouvíramos daqueles que viveram situações similares: “a travessia do deserto”, “o tempo da solidão”, os “dias de sacrifício”. Tudo verdade. E apesar de nos dizerem que compensaremos o tempo perdido, mantém-se uma percepção residual do irremediável. Aquela que se reforça quando, passando por um sítio de que se gosta, se lê assim:

Cada dia sem gozo não foi teu:
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.
Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.
Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!

Ricardo Reis

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Em boa hora!

É um dos meus escritores preferidos e ganhou o Nobel. Não posso deixar de expressar o meu contentamento! Ainda há pouco tempo, sem adivinhar, trazia aqui palavras suas, oriundas do digníssimo calhamaço de 630 páginas que me acompanhou durante as férias, Conversa n' A Catedral, que recomendo vivamente. Suponho que, ao contrário do que evoca a frase transcrita, hoje será, para ele, um dia de profunda satisfação.