domingo, 3 de abril de 2011

Apequenar-se

Se somos pequenos e a coisa de que fugimos é grande (já tiveram alguma vez este sonho?), o único esconderijo é um sítio onde a coisa grande não cabe. Mas depois temos de lá ficar, nesse sítio tão pequeno, ou até tornarmo-nos mais pequenos para nos escondermos melhor.

Martin Amis, Money, Biblioteca Sábado, p. 143

Algures por Barcelona

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sem pretexto

O The New York Times publicou muito recentemente um artigo acerca do fenómeno de revitalização do fado em Portugal. Depois da candidatura do nosso fado a Património Imaterial da Humanidade junto da UNESCO, toda a visibilidade é bem-vinda!
E já que falamos de fado, porque não ouvi-lo? Sem que para tal se necessite de qualquer pretexto.



Mariza, Há Uma Música do Povo
Poema: Fernando Pessoa | Composição: Mário Pacheco

Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Desocultação

"A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África continua a praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.

A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é uma disposição natural não há sequer que lhes perguntar se aceitam os encargos ou sob que condições. Os cortes nas despesas sociais do Estado atualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com deficiência). Se os doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível com desejar mais vivos. "

Crónica completa de Boaventura Sousa Santos, aqui.

domingo, 20 de março de 2011

Da perda

Amores Perros (2000), de Alejandro González Iñárritu

No final deste inquietante filme surge a frase que poderá condensar todo o seu enredo, bem como uma parte indesmentível das nossas vidas:

Porque também somos aquilo que perdemos.

domingo, 13 de março de 2011

Uma só hora plena

Joseph Chamberlain Memorial Clock Tower ("Old Joe"),
Universidade de Birmingham

Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte volta a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto.


José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caminho, p. 317

domingo, 6 de março de 2011

Black Dog


No filme O Discurso do Rei, Winston Churchill surge como um personagem secundário. Secundário no filme, mas centralíssimo na vida real, na sua e na de muitos. E ao ver a luta do rei contra a gaguez, não me pude inibir de pensar na luta do grande estadista contra a depressão, visita recorrente ao longo de toda a sua vida. Churchill denominava-a “Black Dog”. Mas, como em muitas outras lutas que enfrentou, também nesta, certamente dura e impenitente, poderemos concluir que a sua vida foi um exemplo de superação. E dou por mim a pensar se, por vezes, os seus famosos dedos em riste não representariam um certo triunfo privado sobre um indesejado cão negro.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Magnólias

Mostram-se em profusão floral por esta altura do ano, desafiando um Inverno ainda plenamente instalado. Contrariando uma certa lógica, lançam a flor antes da folha. Como se não conseguissem esperar. Como se essa mesma urgência fosse a expressão concreta e esplendorosa da nossa própria ânsia de Primavera.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Distância

(…) a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós, a solidão não é uma árvore no meio de uma planície onde só ela esteja, é a distância entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Caminho, p. 220


Parque das Termas da Curia, Anadia

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aurora boreal


Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão, Obra Poética

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Desabrigados


Em trânsito pela estação de metro de S. Bento deparei-me com elas e fui espreitar. Por uma ampla extensão, espalhavam-se várias esculturas em tamanho real, representando pessoas sem-abrigo. Soube mais tarde que se tratava de uma exposição pan-europeia itinerante de esculturas de bronze do escultor dinamarquês Jens Galschiøt, inserida no projecto “Welcome HomeLess” e trazida a Portugal no âmbito do Ano Internacional contra a Pobreza e a Exclusão Social.
Não pude deixar de notar que, na correria da manhã, quase ninguém se aproximava delas. Assim como não pude deixar de ponderar a possibilidade metafórica desse facto. Não nos aproximamos. Nem destas, nem da realidade que representam, a daqueles que estão efectivamente lá fora, desabrigados.
Interpeladoras, logo ao início da manhã.