sábado, 7 de maio de 2011

Jogos do espírito

Pablo Picasso, O Sonho, 1932

À cabeceira dos doentes, acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos de espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos; a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade.

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, Planeta de Agostini, p. 194

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aprender

Na língua chinesa, dois símbolos representam a palavra “aprender”. O primeiro significa “estudar” e é composto de duas partes: um símbolo que significa “acumular conhecimento” é colocado sobre outro que representa uma criança parada em uma porta, reflectindo, protegida e apoiada. O segundo símbolo significa “praticar constantemente” e mostra um pássaro desenvolvendo a capacidade de sair do ninho, experimentando. O símbolo de cima representa o voo, e o de baixo, a juventude.
(Senge, 2005)

[Encontrei este excerto na parte introdutória de uma tese de doutoramento. Achei extraordinário!]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

As três palavras mais estranhas



Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba pertence já ao passado.


Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.


Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhuma não-existência.


Wislawa Szymborska

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Engalanada

Braga engalanou-se de roxo por estes dias, simbolismo de Quaresma e chamariz para os turistas que nos visitam para as festividades da Semana Santa. Apesar de não ser grande apreciadora da cor ou da época, o facto é que acabei por achar, durante a incursão fotográfica de final de tarde, que a atmosfera criada era estranhamente serena. E até o cinzentismo do dia, tão malquerido noutras alturas, se revelou o enquadramento perfeito para este tranquilo passeio quaresmal.
Boa Páscoa para todos!



1. Rua do Souto; 2. Jardim de Santa Bárbara; 3. Rua D. Afonso Henriques

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Beleza interior*


Para lá do exterior, há redutos onde a beleza se aninha, de forma mais ou menos secreta. Focar a “lente” nestes espaços recônditos é condição para vislumbrar o que a superfície oculta e aceder aos contornos essenciais, íntimos e sublimes da Beleza.

*Com um beijinho especial para a minha Mãe: porque fez anos recentemente, porque foi pelas suas mãos que surgiram as tulipas que originaram este post e, sobretudo, porque é possuidora de inegável beleza interior.

sábado, 9 de abril de 2011

Moeda a moeda

Foz do Minho, Caminha

Aos vinte anos, julgara-se liberto de rotinas e de ideias feitas que paralisam os nossos actos e armam de antolhos o nosso entendimento, mas depois passara a comprar, moeda a moeda, aquela liberdade de que julgara poder apossar-se logo à primeira. Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme, quiçá tanto quanto se vive.

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, Planeta de Agostini, p. 115

domingo, 3 de abril de 2011

Apequenar-se

Se somos pequenos e a coisa de que fugimos é grande (já tiveram alguma vez este sonho?), o único esconderijo é um sítio onde a coisa grande não cabe. Mas depois temos de lá ficar, nesse sítio tão pequeno, ou até tornarmo-nos mais pequenos para nos escondermos melhor.

Martin Amis, Money, Biblioteca Sábado, p. 143

Algures por Barcelona

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sem pretexto

O The New York Times publicou muito recentemente um artigo acerca do fenómeno de revitalização do fado em Portugal. Depois da candidatura do nosso fado a Património Imaterial da Humanidade junto da UNESCO, toda a visibilidade é bem-vinda!
E já que falamos de fado, porque não ouvi-lo? Sem que para tal se necessite de qualquer pretexto.



Mariza, Há Uma Música do Povo
Poema: Fernando Pessoa | Composição: Mário Pacheco

Há uma música do Povo,
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Desocultação

"A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África continua a praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.

A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é uma disposição natural não há sequer que lhes perguntar se aceitam os encargos ou sob que condições. Os cortes nas despesas sociais do Estado atualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com deficiência). Se os doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível com desejar mais vivos. "

Crónica completa de Boaventura Sousa Santos, aqui.

domingo, 20 de março de 2011

Da perda

Amores Perros (2000), de Alejandro González Iñárritu

No final deste inquietante filme surge a frase que poderá condensar todo o seu enredo, bem como uma parte indesmentível das nossas vidas:

Porque também somos aquilo que perdemos.