sexta-feira, 3 de junho de 2011

O mundo é uma Bolsa

Pieter Bruegel, o Velho, A Parábola dos Cegos, 1568

O mundo é uma Bolsa. E, portanto, o jogo político, que tinha uma dimensão própria, é hoje o subproduto de um jogo muito mais profundo e radical, que é o das forças de transformação da sociedade, que são de ordem económica, financeira e científica. São elas que comandam tudo o resto. A política, nas sociedades que se querem democráticas, é apenas a maneira de utilizar esses meios da maneira mais aceitável. Mas o ímpeto, o motor da civilização em que estamos, não tem nada de democrático em si mesmo. É uma força cega, como se fosse uma força da natureza, ainda que seja humana. (…) Tudo passa pelos fins da máquina produtiva mundial, que se torna mais abstracta ainda por ser, fundamentalmente, do tipo financeiro. E é uma máquina que se vai destruindo a si própria.

Excerto de entrevista ao Professor Eduardo Lourenço, publicada integralmente aqui.


sábado, 28 de maio de 2011

Como é possível




Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.


Maria Teresa Horta, Vozes e Olhares no Feminino
(retirado daqui)





domingo, 22 de maio de 2011

Blessed



Blessed is the mind with something to occupy it other than its own dissatisfactions.

Susan Sontag, Reborn, Early Diaries 1947-1963,
Penguin, p. 305.


Fotografia de Annie Liebovitz

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Experiência radical

Desta vez não houve saltos de parapente, apesar do entusiasmo que uma tal perspectiva produziu em alguns elementos do grupo. Eu não era um desses elementos. Para mim, o “voo” é outro. É um voo em que os pés não se distanciam do chão e em que a adrenalina não se espraia pelas veias. E, ainda assim, eu voo. Os meus olhos são uma asa colorida, lançada sobre o abismo, planando por sobre a majestade da serra, ganhando ou perdendo altitude por imperativo da vontade. E quem disse que esta não é uma experiência, também ela, radical? :-)


Serra do Larouco, Montalegre

sábado, 7 de maio de 2011

Jogos do espírito

Pablo Picasso, O Sonho, 1932

À cabeceira dos doentes, acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos de espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos; a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade.

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, Planeta de Agostini, p. 194

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aprender

Na língua chinesa, dois símbolos representam a palavra “aprender”. O primeiro significa “estudar” e é composto de duas partes: um símbolo que significa “acumular conhecimento” é colocado sobre outro que representa uma criança parada em uma porta, reflectindo, protegida e apoiada. O segundo símbolo significa “praticar constantemente” e mostra um pássaro desenvolvendo a capacidade de sair do ninho, experimentando. O símbolo de cima representa o voo, e o de baixo, a juventude.
(Senge, 2005)

[Encontrei este excerto na parte introdutória de uma tese de doutoramento. Achei extraordinário!]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

As três palavras mais estranhas



Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba pertence já ao passado.


Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.


Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhuma não-existência.


Wislawa Szymborska

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Engalanada

Braga engalanou-se de roxo por estes dias, simbolismo de Quaresma e chamariz para os turistas que nos visitam para as festividades da Semana Santa. Apesar de não ser grande apreciadora da cor ou da época, o facto é que acabei por achar, durante a incursão fotográfica de final de tarde, que a atmosfera criada era estranhamente serena. E até o cinzentismo do dia, tão malquerido noutras alturas, se revelou o enquadramento perfeito para este tranquilo passeio quaresmal.
Boa Páscoa para todos!



1. Rua do Souto; 2. Jardim de Santa Bárbara; 3. Rua D. Afonso Henriques

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Beleza interior*


Para lá do exterior, há redutos onde a beleza se aninha, de forma mais ou menos secreta. Focar a “lente” nestes espaços recônditos é condição para vislumbrar o que a superfície oculta e aceder aos contornos essenciais, íntimos e sublimes da Beleza.

*Com um beijinho especial para a minha Mãe: porque fez anos recentemente, porque foi pelas suas mãos que surgiram as tulipas que originaram este post e, sobretudo, porque é possuidora de inegável beleza interior.

sábado, 9 de abril de 2011

Moeda a moeda

Foz do Minho, Caminha

Aos vinte anos, julgara-se liberto de rotinas e de ideias feitas que paralisam os nossos actos e armam de antolhos o nosso entendimento, mas depois passara a comprar, moeda a moeda, aquela liberdade de que julgara poder apossar-se logo à primeira. Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme, quiçá tanto quanto se vive.

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, Planeta de Agostini, p. 115