quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esforço

No centro de Vila Nova de Cerveira é possível apreciar esta escultura, constituída por uma estrutura metálica triangular e um bloco de pedra, associados a um fluxo ascendente de água. Se nos aproximarmos da sua base, verificamos tratar-se de uma obra da autoria do escultor José Rodrigues, doada à cidade e intitulada “Esforço”. Observando a escultura mais atentamente, não há como não reconhecer a persistência, constância e direcção evocadas, ingredientes essenciais dessa palavra maior com que foi baptizada.

A propósito, o escultor José Rodrigues vai, muito merecidamente, ser homenageado na 16ª Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, a decorrer entre 16 de Julho e 17 de Setembro. Aproveito para deixar esta sugestão para férias. Eu irei espreitar, certamente.



sábado, 16 de julho de 2011

Faculdades superiores

Mark Chagall, Les Amants au Ciel Rouge, 1950

Se uma sociedade contasse só com a inteligência como seu eixo motor, não mudava nunca e perecia decerto por falta de mobilidade dos seus desejos e das suas afeições. Os ímpetos irreflectidos, os movimentos de cólera ou de alegria súbita, as demonstrações de ternura que contagiam toda a gente, o estado romântico em suma, têm uma grande audiência e um grande favor nos meios que percebem quanto as faculdades inferiores contribuem para a transformação das situações.

Agustina Bessa-Luís, Memórias Laurentinas, Guimarães Editores, p. 222

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Saciados

Vila Praia de Âncora, Viana do Castelo


Se ao menos o pôr do sol se pudesse comer
ficaríamos saciados.

J. M. Coetzee, No Coração desta Terra, Publicações D. Quixote, p. 144



sexta-feira, 1 de julho de 2011

Posse incerta

...
Dizem meu como alguém gosta por vezes
de ao príncipe amigo chamar em conversa com camponeses,
quando este príncipe é muito grande e muito distante.
Dizem meu dos muros sem calor
e nem sequer conhecem de sua casa o senhor.
Dizem meu e a isso chamam posse num instante,
quando se fecha cada coisa de que sua mão se abeira,
tal como um charlatão de feira
que talvez ao sol chame seu e ao clarão relampejante.
Assim dizem: minha vida, minha mulher também,
meu cão, meu filho e no entanto sabem bem
que tudo: vida, mulher e cão e filho somente
estranhas criações são, em que cegamente
tocam de mãos estendidas, na incerteza. 
... 

Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, Assírio & Alvim, p. 273 

Forum des Halles, Paris

domingo, 26 de junho de 2011

Estrada, eu sou


Maria Bethânia, Tocando em Frente
Composição: Almir Sater / Renato Teixeira

...
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu sou
Estrada eu vou


...
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Boa sorte e fortuna

Para quem vive entre Braga e Porto, o S. João é incontornável. Por isso, ontem houve festa, menos pública e mais privada, mas sem negligenciar certas tradições. E nem faltou o alho-porro, captado quando ainda preso à terra. O tom azul é efeito de alguma asneira que fiz com a máquina, mas cujo resultado gostei :-). Aqui os deixo, sem pancadinha na cabeça, mas com votos de boa sorte e fortuna para todos.


domingo, 19 de junho de 2011

A vida dos outros

Paula Rego, À Janela, 1997

Parece haver a necessidade de saber o que a vida dá aos outros, ou de saber como é para os outros a vida; pensar nela e falar dela. Uma necessidade de viver fora, nessa curiosidade pela vida dos outros, ou uma forma de preencher o vazio da nossa, distrair-nos dos incómodos, dos trabalhos que nos dá. E assim passar o tempo. Aconteceu uma desgraça? Um caso estranho? Porquê? Como se explica? Corre-se a ver, a ouvir. Ah, é assim? Não, qual quê! Assim não pode ser. Como então? E quando nada acontece, o aborrecimento, o peso das ocupações habituais. E a angústia de ver, como vê agora a senhora Léuca, morrer lentamente nas vidraças a luz do dia.

Luigi Pirandello, Pena de Viver Assim, Biblioteca Editores Independentes, pp. 25-26

terça-feira, 14 de junho de 2011

"... da Vida"


Ama
Se não amares, a tua vida passará num segundo
Ajuda os outros
Maravilha-te
Tem esperança

sexta-feira, 10 de junho de 2011

De cara lavada

A Estação de S. Bento é um local por onde passo com alguma regularidade. Por isso, e apesar da beleza e imponência dos painéis de azulejos, o hábito acabou por matar o encantamento e há algum tempo que serviam apenas como cenário às minhas chegadas e partidas. Entretanto, foram sujeitos a obras de restauro durante vários meses, tendo ressurgido recentemente, de face lavada. O encantamento reavivou-se e creio não ser a única sob tal efeito, pela quantidade de flashes que por lá tenho testemunhado. Afinal, sempre são 550 metros de bela azulejaria portuguesa!



sexta-feira, 3 de junho de 2011

O mundo é uma Bolsa

Pieter Bruegel, o Velho, A Parábola dos Cegos, 1568

O mundo é uma Bolsa. E, portanto, o jogo político, que tinha uma dimensão própria, é hoje o subproduto de um jogo muito mais profundo e radical, que é o das forças de transformação da sociedade, que são de ordem económica, financeira e científica. São elas que comandam tudo o resto. A política, nas sociedades que se querem democráticas, é apenas a maneira de utilizar esses meios da maneira mais aceitável. Mas o ímpeto, o motor da civilização em que estamos, não tem nada de democrático em si mesmo. É uma força cega, como se fosse uma força da natureza, ainda que seja humana. (…) Tudo passa pelos fins da máquina produtiva mundial, que se torna mais abstracta ainda por ser, fundamentalmente, do tipo financeiro. E é uma máquina que se vai destruindo a si própria.

Excerto de entrevista ao Professor Eduardo Lourenço, publicada integralmente aqui.