quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A língua é a casa onde o homem habita



- Mamã, o que é a língua?
- A língua é a casa onde o homem habita.

Jean-Luc Godard, Deux ou Trois Choses que Je Sais d’ Elle (1967).





Há tempos, participei numa formação sobre as regras do novo acordo ortográfico. O formador afirmava que a grande dificuldade na aplicação das novas regras era de natureza perceptiva (ou, como boa formanda, deverei escrever “percetiva”). Não poderia discordar mais e a frase na boca da personagem de Godard fala por mim. Posso dizer, inspirando-me nela, que mantenho a nítida impressão de que, nos últimos tempos, me arrombaram a porta de casa e perpetraram um sério furto. E os efeitos de um furto doloroso nunca são unicamente perceptivos, senhor formador.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Perto do mar


O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas – altas, altas.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, p. 26.



1 e 2: Vista a partir do Centro Cultural Casa das Mudas, Calheta, Madeira.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Levada do Caldeirão Verde

A companhia permanente das águas e do verde. Os picos e escarpas que espantam. O olhar atento às irregularidades do trilho e o olhar que se expande para o horizonte. A luz e as sombras. As risadas e o silêncio mais profundo. As sonoridades minhotas e o carregado sotaque francês. Um almoço improvisado dentro de um gigantesco “caldeirão”. Uma poncha para rematar o caminho.
Há horas que se aproximam da perfeição.

Obrigada, A.!



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um mundo novo


O Novo Mundo, 2005 | Escrito e realizado por Terrence Malick

Vamos começar de novo
Tudo do princípio
Aqui, as bênçãos da natureza são concedidas a todos
Ninguém ficará pobre
Aqui, há boa terra para todos, apenas à custa de trabalho
Criaremos uma verdadeira comunidade
Trabalho árduo e confiança em nós próprios serão a nossa virtude
Não teremos proprietários a extorquir-nos rendas exorbitantes ou o fruto do nosso trabalho
Ninguém se alimentará descuidadamente daquilo que o amigo conseguiu merecidamente
Ou roubará aquilo que ele teve a virtude de armazenar
Os homens não se explorarão uns aos outros.

[Um mundo novo? Talvez não. Repensar seriamente este que temos? Com certeza.]

domingo, 20 de novembro de 2011

Duplicidade

A grande maioria dos homens é obrigada a uma duplicidade constante, uma duplicidade erigida em sistema. Não é fácil, sem se dar cabo da saúde, aparentarmos, dia após dia, o contrário daquilo que sentimos realmente, deixarmo-nos crucificar por aquilo que não amamos, regozijarmo-nos com aquilo que nos entristece. O nosso sistema nervoso não é uma expressão vã ou uma invenção. É um corpo físico composto de nervos. A nossa alma situa-se no espaço e implanta-se em nós como os dentes nos maxilares. Não podemos violentá-la impunemente.

Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Colecção Mil Folhas-Público, p. 510

Monção


terça-feira, 15 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Os jardins imaginários


Os jardins imaginários que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
        que não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão.

                                             Ana Hatherly, Rilkeana

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

"Imbicta"

A revista Lonely Planet propôs o Porto como o 4º destino mundial predileto para 2012. Apesar das desconfianças face a estes rankings, acho que, neste caso, não lhe faltam boas razões. Algumas fotografei-as esta semana, numa breve escapadela, aproveitando um esplendoroso sol outonal.
Neste caso, é inevitável recordar uma experiência vivida em Setembro, em Genebra. Uma das tarefas que lá nos levou foi a apresentação de um congresso que decorrerá no Porto, em 2012. É da praxe incluir uma breve incursão pela cidade que acolherá o encontro. Confesso que, nestes tempos tão difíceis, foi com grande emoção e orgulho que vi o grande ecrã encher-se com as imagens do nosso Porto e que ouvi, no final, os aplausos de pessoas vindas dos cinco continentes. Cá as esperamos, no próximo ano, nesta extraordinária cidade. Pedimos que tragam o cérebro e a carteira. Precisaremos de ambos :-)



1. Vista a partir da Ponte D. Luís; 2. Numa rua da Sé.

domingo, 30 de outubro de 2011

Trabalhadora inteligente

"E a sua dúvida pode tornar-se uma boa qualidade se a educar. Tem de tornar-se conhecedora, tem de tornar-se crítica. Sempre que a dúvida quiser corromper qualquer coisa, pergunte-lhe por que razão essa coisa é feia, exija-lhe provas, examine-a, e talvez ela lhe pareça perplexa e embaraçada, talvez mesmo irritante. Mas não ceda, peça-lhe argumentos e proceda sempre assim caso a caso, de modo atento e consequente, e chegará o dia em que a dúvida deixará de ser destruidora para se tornar um dos seus melhores trabalhadores – talvez o mais inteligente entre todos os que constroem a sua vida."

Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta, Edições Quasi, pp. 82-83.


Auguste Rodin, O Pensador, 1904 | Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Estrasburgo


terça-feira, 25 de outubro de 2011

Onde as crianças dormem


O fotógrafo James Mollison retrata no livro “Where Children Sleep” os locais onde dormem crianças de vários pontos do planeta. Neste livro podemos encontrar, por exemplo, o quarto que Indira, de 7 anos, partilha com os pais e irmãos em Katmandu, onde Indira trabalha numa pedreira; ou o quarto de Jasmine, de 4 anos, que reside no Kentucky e já participou em 100 concursos de beleza; ou ainda o quarto em cujo chão dorme Erien, grávida aos 14 anos e moradora numa favela do Rio de Janeiro; ou o colchão que um menino romeno de 4 anos partilha com a família nos arredores de Roma.

As imagens são um bom mote reflexivo acerca de circunstâncias culturais ou mesmo relativismo cultural mas, sobretudo, acerca daquilo que nunca deverá ser relativo: os direitos das crianças, constantemente sujeitos a atropelos e incúria, do outro lado do mundo ou do outro lado da rua.