A intenção era fotografar as camélias, mas a geada já fizera os seus estragos antes de eu lá chegar. O certo é que a Natureza sempre nos vai presenteando com alternativas e estas até me parecem bastante adequadas ao frio que se faz sentir: uns gomos de tangerina, um chá de limão e mel, um suminho de laranja, tudo vale para enfrentar este verdadeiro ente polar.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Da culpa
(…) a culpa, porém, tanto a comprovável como a escondida, ou aquela que apenas se suspeita, essa fica. Faz tiquetaque sem parar, e mesmo nas viagens a nenhures lá está ela no seu lugar, à espera. Recita a sua pequena sentença, não teme repetições, faz-se esquecer, por longos períodos, magnânima, e hiberna em sonhos. Permanece como sedimento, não pode ser removida como uma mancha, sorvida como uma poça. Aprendeu desde cedo a procurar refúgio, confessada na concha de um ouvido, a tornar-se mais pequena do que pequena, num nada, fazendo-se passar por prescrita ou há muito perdoada, mas está afinal, assim que a cebola desaparece camada após camada, inscrita nas camadas mais novas: às vezes com letras maiúsculas, outras com frase subordinada ou nota de rodapé, às vezes é claramente legível, outras ainda aparece em hieróglifos que, quando muito, podem ser decifrados a custo.
Günter Grass, Descascando a Cebola – Autobiografia 1939-1959. Casa das Letras, p. 33.
[Neste livro, o autor assume ter pertencido à Juventude Hitleriana e às Waffen-SS, confissão que, à data, foi causadora de grande polémica. Paralelamente a uma incursão por uma Alemanha devastada pela guerra, este livro é também uma incursão pela vida interior de um homem perseguido pela culpa, pelo constante exercício da justificação, pela busca (infrutífera?) de expiação.]
domingo, 29 de janeiro de 2012
Espera
Não gosto de esperar. Mas quando se espera num sítio maravilhoso, até agradeço que se atrasem. É que a espera preenchida pela beleza e tranquilidade não se assemelha em nada a uma espera convencional. Também os espaços onde esperamos devem ser cuidadosamente escolhidos. Os físicos e os outros, se tal nos for possível.
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| Parque da Fundação Calouste Gulbenkian |
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Uma coisa é necessária
sábado, 14 de janeiro de 2012
Azul
sábado, 7 de janeiro de 2012
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Luz!
Aproveito a luz que, por estes dias, invadiu esta praça central de Braga para reforçar os meus votos de que ela inunde também as vossas vidas nesta quadra e em cada dia do novo ano.
Para todos, sem excepção:
Um muito feliz Natal e um excelente ano de 2012!
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
A língua é a casa onde o homem habita
- Mamã, o que é a língua?
- A língua é a casa onde o homem habita.
Jean-Luc Godard, Deux ou Trois Choses que Je Sais d’ Elle (1967).
Há tempos, participei numa formação sobre as regras do novo acordo ortográfico. O formador afirmava que a grande dificuldade na aplicação das novas regras era de natureza perceptiva (ou, como boa formanda, deverei escrever “percetiva”). Não poderia discordar mais e a frase na boca da personagem de Godard fala por mim. Posso dizer, inspirando-me nela, que mantenho a nítida impressão de que, nos últimos tempos, me arrombaram a porta de casa e perpetraram um sério furto. E os efeitos de um furto doloroso nunca são unicamente perceptivos, senhor formador.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Perto do mar
O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas – altas, altas.
Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, p. 26.
1 e 2: Vista a partir do Centro Cultural Casa das Mudas, Calheta, Madeira.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Levada do Caldeirão Verde
A companhia permanente das águas e do verde. Os picos e escarpas que espantam. O olhar atento às irregularidades do trilho e o olhar que se expande para o horizonte. A luz e as sombras. As risadas e o silêncio mais profundo. As sonoridades minhotas e o carregado sotaque francês. Um almoço improvisado dentro de um gigantesco “caldeirão”. Uma poncha para rematar o caminho.
Há horas que se aproximam da perfeição.
Obrigada, A.!
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