terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera!

Ponte de Lima

Foi com esta fotografia que concorri pela primeira vez a um concurso fotográfico, patrocinado por uma associação limiana. Não fiquei em primeiro lugar. Não fiquei em segundo. Na verdade, não ganhei a t’shirt que estava destinada às dez melhores fotografias. A minha mana, consoladora, diz que foram cunhas. O meu amor-próprio concorda com esta teoria :))

De todos os modos, continuo a gostar muito dela. Recorda-me dias de liberdade e lentidão, exalta a imaginação e o colorido. Faz-me sorrir.

Hoje, pareceu-me um bom mote para vos desejar uma óptima Primavera. Com maiúscula, naturalmente.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ecpirose

Em 2008, Umberto Eco dizia:

Porque nunca como agora três dos elementos primordiais estão ameaçados: o ar, assassinado pela poluição e pelo anidrido carbónico; a água, que, por um lado, se empesta e, por outro lado, se apresta a faltar cada vez mais. Está a triunfar apenas o fogo, sob a forma de calor que seca a Terra, perturbando as estações, e que, derretendo os gelos, convidará os mares a invadi-la. Sem nos darmos conta, caminhamos para a primeira e verdadeira ecpirose. Enquanto Bush e a China recusam o Protocolo de Quioto, caminhamos para a morte pelo fogo – e pouco nos importa que, depois do nosso holocausto, o Universo se regenere, porque não será o nosso.

Umberto Eco, Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais, Gradiva, p. 90.

[Em Dezembro passado, o Canadá abandonou o Protocolo de Quioto, juntando-se aos EUA e à China que sempre recusaram a sua assinatura, apesar de constituírem os dois países com emissões mais elevadas de gases com efeito de estufa. Nessa altura, a China considerou “lamentável” a decisão canadiana (???!!!!). Infelizmente, lamentaremos muito mais.]

domingo, 11 de março de 2012

Prémio Dardos


"O Prémio Dardos reconhece os valores que cada blogueiro mostra em cada dia no seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais... que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras."


Obrigada, Cozinha dos Vurdóns, Margarida Elias e Fernando Reis!

Possui três regras:
1- Se aceitar, exibir a imagem.
2- Linkar o blog do qual recebeu o prémio.
3- Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos

 
Cá vão as minhas escolhas, em jeito de homenagem e agradecimento:
 
A Casa Improvável
Amigos de Portugal
Bibliofilia entre Parêntesis
Blogue do Reis
Cozinha dos Vurdóns
Diário de uma Diva
Flor de Lis
Grifo Planante
(In)Cultura
Interioridades
Mar Arável
Memórias e Imagens
Pé de Meia
Presépio com Vista para o Canal
Quarteto de Alexandria

segunda-feira, 5 de março de 2012

Da beleza

A beleza não é uma invenção humana.

Saul Bellow, Herzog, Biblioteca Sábado, p. 16

Praia Norte, Viana do Castelo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chuva

O sol mantem-se radioso e a chuva continua a não dar qualquer sinal. Para mim, seria uma perfeição de inverno, não fossem as notícias que se vão sucedendo: as culturas em perigo, as produções ameaçadas, as barragens que se esvaziam, populações, como a de Bragança, que temem pela água potável.
Perante este cenário, resta esperar que ela nos conceda umas visitas regulares, nos tempos mais próximos. E, aí, até eu farei coro com o Gene Kelly: I've a smile on my face/ I walk down the lane/ With a happy refrain/ Just singin'/ Singin' in the rain.

Adornada por uma noite de chuva outonal, no quintal da mãe

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um sítio onde pousar a cabeça


Há um espaço enorme, uma imensidão entre nós e as palavras, que é ocupado por coisa nenhuma. E quando nós tentamos ultrapassá-lo, só num acto de amor é que é possível ir ao encontro delas e deixar que elas venham ao nosso encontro. (…)
A escrita para mim é mais do que respostas, é interrogações. Mais do que para afirmar a minha identidade, é para a procurar.

A voz de Manuel António Pina tecendo palavras sobre as palavras e a escrita, num documentário recentemente exibido na RTP 2. O título deste é extraído de um dos seus poemas, que aqui vos deixo, porque há palavras que pedem para serem partilhadas.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Nunca recordaremos haber muerto


Paula Rego, Tempo Passado e Presente (1990)
Tanta paciencia
para ser tuvimos
anotando
los números, los días,
los años y los meses,
los cabellos, las bocas que besamos,
y aquel minuto de morir
lo dejamos sin anotación:
se lo damos a otro de recuerdo
o simplemente al agua,
al agua, al aire, al tiempo.
Ni de nacer tampoco
guardamos la memoria,
aunque importante y fresco fue ir naciendo;
y ahora no recuerdas ni un detalle,
no has guardado ni un ramo
de la primera luz.
(...)

No tienes más recuerdo que tu vida.
                                                                                   
Pablo Neruda, Plenos Poderes (1962)


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Vitamina C

A intenção era fotografar as camélias, mas a geada já fizera os seus estragos antes de eu lá chegar. O certo é que a Natureza sempre nos vai presenteando com alternativas e estas até me parecem bastante adequadas ao frio que se faz sentir: uns gomos de tangerina, um chá de limão e mel, um suminho de laranja, tudo vale para enfrentar este verdadeiro ente polar.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Da culpa


(…) a culpa, porém, tanto a comprovável como a escondida, ou aquela que apenas se suspeita, essa fica. Faz tiquetaque sem parar, e mesmo nas viagens a nenhures lá está ela no seu lugar, à espera. Recita a sua pequena sentença, não teme repetições, faz-se esquecer, por longos períodos, magnânima, e hiberna em sonhos. Permanece como sedimento, não pode ser removida como uma mancha, sorvida como uma poça. Aprendeu desde cedo a procurar refúgio, confessada na concha de um ouvido, a tornar-se mais pequena do que pequena, num nada, fazendo-se passar por prescrita ou há muito perdoada, mas está afinal, assim que a cebola desaparece camada após camada, inscrita nas camadas mais novas: às vezes com letras maiúsculas, outras com frase subordinada ou nota de rodapé, às vezes é claramente legível, outras ainda aparece em hieróglifos que, quando muito, podem ser decifrados a custo.

Günter Grass, Descascando a Cebola – Autobiografia 1939-1959. Casa das Letras, p. 33.

[Neste livro, o autor assume ter pertencido à Juventude Hitleriana e às Waffen-SS, confissão que, à data, foi causadora de grande polémica. Paralelamente a uma incursão por uma Alemanha devastada pela guerra, este livro é também uma incursão pela vida interior de um homem perseguido pela culpa, pelo constante exercício da justificação, pela busca (infrutífera?) de expiação.]

domingo, 29 de janeiro de 2012

Espera

Não gosto de esperar. Mas quando se espera num sítio maravilhoso, até agradeço que se atrasem. É que a espera preenchida pela beleza e tranquilidade não se assemelha em nada a uma espera convencional. Também os espaços onde esperamos devem ser cuidadosamente escolhidos. Os físicos e os outros, se tal nos for possível.

Parque da Fundação Calouste Gulbenkian

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma coisa é necessária

  
Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo difícil
de sem-abrigos e desterrados:

Fixares residência em ti.

Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.

Hans Børli, 1974 [retirado daqui]

Catedral da Sagrada Famíla, Barcelona

sábado, 14 de janeiro de 2012

Azul

- Quero concentrar-me em algo de inofensivo que exista no mundo.
- Estás a falar de que mundo? Aqui em baixo não há nada de inofensivo.
- Claro que há. O azul. Esse não magoa ninguém.

Toni Morrison, Beloved, Publicações D. Quixote, p. 234.

Palácio da Brejoeira, Monção

sábado, 7 de janeiro de 2012

Superação














Defendi o meu doutoramento na primeira semana do ano.
Estou muito feliz.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Luz!

Aproveito a luz que, por estes dias, invadiu esta praça central de Braga para reforçar os meus votos de que ela inunde também as vossas vidas nesta quadra e em cada dia do novo ano.
Para todos, sem excepção:

Um muito feliz Natal e um excelente ano de 2012! 



quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A língua é a casa onde o homem habita



- Mamã, o que é a língua?
- A língua é a casa onde o homem habita.

Jean-Luc Godard, Deux ou Trois Choses que Je Sais d’ Elle (1967).





Há tempos, participei numa formação sobre as regras do novo acordo ortográfico. O formador afirmava que a grande dificuldade na aplicação das novas regras era de natureza perceptiva (ou, como boa formanda, deverei escrever “percetiva”). Não poderia discordar mais e a frase na boca da personagem de Godard fala por mim. Posso dizer, inspirando-me nela, que mantenho a nítida impressão de que, nos últimos tempos, me arrombaram a porta de casa e perpetraram um sério furto. E os efeitos de um furto doloroso nunca são unicamente perceptivos, senhor formador.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Perto do mar


O corpo sabe.
O corpo não esqueceu ainda
a direcção do sol:
fará a casa perto do mar,
fiel ao quase adolescente
coração da água.
As mãos acesas – altas, altas.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, p. 26.



1 e 2: Vista a partir do Centro Cultural Casa das Mudas, Calheta, Madeira.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Levada do Caldeirão Verde

A companhia permanente das águas e do verde. Os picos e escarpas que espantam. O olhar atento às irregularidades do trilho e o olhar que se expande para o horizonte. A luz e as sombras. As risadas e o silêncio mais profundo. As sonoridades minhotas e o carregado sotaque francês. Um almoço improvisado dentro de um gigantesco “caldeirão”. Uma poncha para rematar o caminho.
Há horas que se aproximam da perfeição.

Obrigada, A.!



quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um mundo novo


O Novo Mundo, 2005 | Escrito e realizado por Terrence Malick

Vamos começar de novo
Tudo do princípio
Aqui, as bênçãos da natureza são concedidas a todos
Ninguém ficará pobre
Aqui, há boa terra para todos, apenas à custa de trabalho
Criaremos uma verdadeira comunidade
Trabalho árduo e confiança em nós próprios serão a nossa virtude
Não teremos proprietários a extorquir-nos rendas exorbitantes ou o fruto do nosso trabalho
Ninguém se alimentará descuidadamente daquilo que o amigo conseguiu merecidamente
Ou roubará aquilo que ele teve a virtude de armazenar
Os homens não se explorarão uns aos outros.

[Um mundo novo? Talvez não. Repensar seriamente este que temos? Com certeza.]

domingo, 20 de novembro de 2011

Duplicidade

A grande maioria dos homens é obrigada a uma duplicidade constante, uma duplicidade erigida em sistema. Não é fácil, sem se dar cabo da saúde, aparentarmos, dia após dia, o contrário daquilo que sentimos realmente, deixarmo-nos crucificar por aquilo que não amamos, regozijarmo-nos com aquilo que nos entristece. O nosso sistema nervoso não é uma expressão vã ou uma invenção. É um corpo físico composto de nervos. A nossa alma situa-se no espaço e implanta-se em nós como os dentes nos maxilares. Não podemos violentá-la impunemente.

Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Colecção Mil Folhas-Público, p. 510

Monção