sábado, 19 de maio de 2012

Velas e valsas

Henri de Toulouse-Lautrec, La Goulue and Valentin, Waltz



O navio desistiu de navegar contra a corrente e aliou-se ao vento e às águas; as suas velas estão agora enfunadas e ele avança, orgulhoso, sobre as ondas condescendentes. A sua velocidade é fruto do seu esforço e dos seus méritos ou dos méritos de forças externas? (...) A mulher que valsa abandona-se nos braços do seu hábil parceiro. A maravilhosa leveza da dança vem dela ou dele?

Karen Blixen, Sombras no Capim, RBA, p. 96.

sábado, 12 de maio de 2012

Porque é que perguntas?


A gente pergunta quando muito porque é que existem as coisas, o mundo e assim. Mas nunca perguntamos porque é que existe a própria razão e o seu modo de ser razão para se perguntar. Porque é que ela há-de ser assim, e não de outra maneira, porque é que existe a pergunta. (…) Mas se nós perguntamos, há-de ter um sentido isso, a pergunta. Não são só as coisas, o universo e tudo o que quiseres, é também o perguntares. Porque é que perguntas? (…) E então eu digo: porque isso é um facto como haver pedras. Portanto perguntar é necessário. E se é necessário, também é necessário querer achar uma resposta.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Bertrand Editora, p. 261.

[Um livro sobre os nossos maiores medos: a perda dos que amamos, pela morte ou pelo abandono, a degradação física e mental, a solidão. Um livro como um soco, doloroso e certeiro, a deixar um rasto de nódoas negras. Um livro cujo personagem principal não é apenas João Vieira: sou eu, somos todos nós.]

domingo, 6 de maio de 2012

Cá dentro







A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer.


Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Bertrand Editora, p. 83.

domingo, 29 de abril de 2012

Espiral

Auguste Rodin, Eva | Museu Rodin, Paris

El mundo avanza en círculos, me dicen,
o es más bien que se mueve en espiral y por tanto no avanza,
se concentra o se dispersa interminablemente,
sin un fin ni un principio, sin objeto y sin sentido, sin porqué ni adónde.

La vida, entonces, vuelve a reencontrarse con lo que fue su origen,
su semilla, la medida de todos sus fracasos, el hueco donde caben nuestros miedos
y al que se ajustan nuestras esperanzas.

Y dando por supuesto que las cosas sean así, tan crudas y tan frágiles,
dime qué hacemos tú y yo aquí parados, soportando el embate de la nada,
el azote que nunca merecimos o ese dardo llamado indiferencia o mala suerte o época difícil.

Dime, aunque tengas que mentirme un poco, que no estamos perdidos,
que aún hay grietas por las que puede entrar algún consuelo,
que esto no es otro de esos callejones sin salida y sin luz donde espantarnos,
donde perder la fe y ganar el llanto.

Convénceme, prométeme la vida.

Amalia Bautista, retirado daqui

domingo, 22 de abril de 2012

Os mais-velhos

Um viajante é o quê?, num é aquele que vem de mais longe? Se você vem de longe, quantos caminhos é que você cruzou, quantas pessoas e o mundo delas, quantas visões você viu, quantas magias? O tempo, avilo, o tempo é essa estrada comprida que eu te falo, e quem vem de longe sempre já tropeçou em mais pedras e enfrentou mais lacraus. Mentira?

Ondjaki, Quantas Madrugadas Tem a Noite, Caminho, p. 154.

Parque das Termas da Curia, Anadia

domingo, 15 de abril de 2012

Florbela



É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...

Florbela Espanca, Poesia Completa, Bertrand, p. 337.

[A propósito do filme Florbela, realizado por Vicente Alves do Ó, com um notável desempenho de Dalila Carmo, a encarnar aquela que um dia terá afirmado não saber viver.]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sem rivalidade

A rivalidade entre Guimarães e Braga é conhecida aqui pelo Minho. E como é sobejamente sabido, as duas cidades detêm, em 2012, títulos de relevo, associados a iniciativas a condizer: uma é Capital Europeia da Cultura, a outra é Capital Europeia da Juventude. Coincidência? Competição? Creio que não. Tenho para mim que este foi um esforço concertado para visibilizar o Minho e Portugal. E para demonstrar que esta hipótese da concertação tem viabilidade, cá vem uma bracarense fazer a apologia de Guimarães, devidamente comprovada in loco: os monumentos, as praças, a gastronomia, o artesanato e as múltiplas iniciativas culturais serão excelentes motivos para passarem por lá. E, não se esqueçam, Braga é mesmo ali ao lado :-))


1. Paço dos Duques; 2. Praça da Oliveira (com o Padrão do Salado, ao fundo).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Do que nada se sabe

A lua ignora que é tranquila e clara
e não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
ao abstracto xadrez como essa mão
que as rege. Talvez o destino humano,
breve alegria e longas odisseias,
seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
e truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, A Rosa Profunda

Fernando Botero, Male Torso | Centro das Artes Casa das Mudas, Calheta, Madeira

quarta-feira, 28 de março de 2012

Há horas assim


Talvez seja isto que te impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso.

Hermann Hesse, Siddhartha, Casa das Letras, p. 148.


terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera!

Ponte de Lima

Foi com esta fotografia que concorri pela primeira vez a um concurso fotográfico, patrocinado por uma associação limiana. Não fiquei em primeiro lugar. Não fiquei em segundo. Na verdade, não ganhei a t’shirt que estava destinada às dez melhores fotografias. A minha mana, consoladora, diz que foram cunhas. O meu amor-próprio concorda com esta teoria :))

De todos os modos, continuo a gostar muito dela. Recorda-me dias de liberdade e lentidão, exalta a imaginação e o colorido. Faz-me sorrir.

Hoje, pareceu-me um bom mote para vos desejar uma óptima Primavera. Com maiúscula, naturalmente.