quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A casa do verão


Seja como for, ainda espero
dos altos muros ver a dança
das nuvens sobre o rio,
as gloriosas flores desfraldar a louca cabeleira.
Eram a casa do verão, os girassóis.
A derradeira.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, p. 88

Do quintal ajardinado da mãe

domingo, 22 de julho de 2012

Sem medida


Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve.
E o mundo não foi feito para ter medida.

Mia Couto, Jesusalém, Caminho, p. 255
  
Bom Jesus do Monte, Braga


domingo, 15 de julho de 2012

A alegria livre do presente!

 ¡Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(¡vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(¡vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
¡Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!

Juan Ramón Jimenez

Margem do lago Léman, Genebra

domingo, 24 de junho de 2012

O mundo que olha o mundo

Normalmente, pensa-se que o eu é uma pessoa debruçada para fora dos seus próprios olhos como se estivesse no parapeito de uma janela e que observa o mundo que se estende em toda a sua vastidão, ali, diante de si. Portanto: há uma janela que dá para o mundo. Do lado de lá está o mundo; e do lado de cá? Sempre o mundo: que outra coisa queriam que estivesse? E então, fora da janela, o que é que fica? Ainda e sempre o mundo, que nesta ocasião se desdobrou em mundo que olha e mundo que é olhado. (…) Ou então, dado que há mundo do lado de cá e mundo do lado de lá da janela talvez o eu não seja mais do que a janela através da qual o mundo olha o mundo.

Ítalo Calvino, Palomar, Editorial Teorema, p. 118

Um olhar sobre o rio Minho, a partir de Tui

sábado, 16 de junho de 2012

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, in Obra Poética I, Caminho, p. 84.


sábado, 9 de junho de 2012

A resposta



 
Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência (…): Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... (…) O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida.

Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim, D. Quixote, pp. 88-89.


sábado, 2 de junho de 2012

O diagnóstico do Dr. Epaminondas

Ilustração de Evelina Oliveira

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988.

domingo, 27 de maio de 2012

Bracara Augusta

Nos últimos dias, Braga parece ter viajado numa máquina do tempo, enchendo-se de romanas e romanos. O centro da cidade ganhou fôlego e vivacidade, uma animação que nem a chuva conseguiu esmorecer. Para além dos espectáculos de rua, o mercado romano traz muito apelo e umas receitas para a crise: chás para a tensão arterial e a angústia, doçuras para os amargos de boca, o resgate de um certo tipo de ludicidade. E para aqueles mais incomodados com a imprevisibilidade do presente, há uma rua pejada de tendas onde poderão pedir auxílio a troco de 20 ou 5 euros que, pelos vistos, nem o esoterismo escapa à lei de mercado.

sábado, 19 de maio de 2012

Velas e valsas

Henri de Toulouse-Lautrec, La Goulue and Valentin, Waltz



O navio desistiu de navegar contra a corrente e aliou-se ao vento e às águas; as suas velas estão agora enfunadas e ele avança, orgulhoso, sobre as ondas condescendentes. A sua velocidade é fruto do seu esforço e dos seus méritos ou dos méritos de forças externas? (...) A mulher que valsa abandona-se nos braços do seu hábil parceiro. A maravilhosa leveza da dança vem dela ou dele?

Karen Blixen, Sombras no Capim, RBA, p. 96.

sábado, 12 de maio de 2012

Porque é que perguntas?


A gente pergunta quando muito porque é que existem as coisas, o mundo e assim. Mas nunca perguntamos porque é que existe a própria razão e o seu modo de ser razão para se perguntar. Porque é que ela há-de ser assim, e não de outra maneira, porque é que existe a pergunta. (…) Mas se nós perguntamos, há-de ter um sentido isso, a pergunta. Não são só as coisas, o universo e tudo o que quiseres, é também o perguntares. Porque é que perguntas? (…) E então eu digo: porque isso é um facto como haver pedras. Portanto perguntar é necessário. E se é necessário, também é necessário querer achar uma resposta.

Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Bertrand Editora, p. 261.

[Um livro sobre os nossos maiores medos: a perda dos que amamos, pela morte ou pelo abandono, a degradação física e mental, a solidão. Um livro como um soco, doloroso e certeiro, a deixar um rasto de nódoas negras. Um livro cujo personagem principal não é apenas João Vieira: sou eu, somos todos nós.]