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domingo, 7 de outubro de 2012

Post com dedicatória implícita

Quem são os amigos que nós amamos? São os que nos contam histórias, os que vivem connosco as histórias que não vão contar e que fazem o maior lastro da nossa memória.

Agustina Bessa-Luís, Memórias Laurentinas, Guimarães, p. 254 

Ana na praia Formosa, Madeira

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A casa do verão


Seja como for, ainda espero
dos altos muros ver a dança
das nuvens sobre o rio,
as gloriosas flores desfraldar a louca cabeleira.
Eram a casa do verão, os girassóis.
A derradeira.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, p. 88

Do quintal ajardinado da mãe

domingo, 22 de julho de 2012

Sem medida


Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve.
E o mundo não foi feito para ter medida.

Mia Couto, Jesusalém, Caminho, p. 255
  
Bom Jesus do Monte, Braga


domingo, 15 de julho de 2012

A alegria livre do presente!

 ¡Qué tristeza este pasar
el caudal de cada día
(¡vueltas arriba y abajo!),
por el puente de la noche
(¡vueltas abajo y arriba!),
al otro sol!
¡Quién supiera
dejar el manto, contento,
en las manos del pasado;
no mirar más lo que fue;
entrar de frente y gustoso,
todo desnudo, en la libre
alegría del presente!

Juan Ramón Jimenez

Margem do lago Léman, Genebra

domingo, 24 de junho de 2012

O mundo que olha o mundo

Normalmente, pensa-se que o eu é uma pessoa debruçada para fora dos seus próprios olhos como se estivesse no parapeito de uma janela e que observa o mundo que se estende em toda a sua vastidão, ali, diante de si. Portanto: há uma janela que dá para o mundo. Do lado de lá está o mundo; e do lado de cá? Sempre o mundo: que outra coisa queriam que estivesse? E então, fora da janela, o que é que fica? Ainda e sempre o mundo, que nesta ocasião se desdobrou em mundo que olha e mundo que é olhado. (…) Ou então, dado que há mundo do lado de cá e mundo do lado de lá da janela talvez o eu não seja mais do que a janela através da qual o mundo olha o mundo.

Ítalo Calvino, Palomar, Editorial Teorema, p. 118

Um olhar sobre o rio Minho, a partir de Tui

sábado, 16 de junho de 2012

Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho,
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Dia do Mar, in Obra Poética I, Caminho, p. 84.


sábado, 9 de junho de 2012

A resposta



 
Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência (…): Quem és tu?... Que querias realmente?... Que sabias realmente?... A que foste fiel ou infiel?... A quê ou a quem mostraste ser corajoso ou cobarde?... (…) O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida.

Sándor Márai, As Velas Ardem Até ao Fim, D. Quixote, pp. 88-89.


domingo, 6 de maio de 2012

Cá dentro







A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer.


Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra, Bertrand Editora, p. 83.

domingo, 29 de abril de 2012

Espiral

Auguste Rodin, Eva | Museu Rodin, Paris

El mundo avanza en círculos, me dicen,
o es más bien que se mueve en espiral y por tanto no avanza,
se concentra o se dispersa interminablemente,
sin un fin ni un principio, sin objeto y sin sentido, sin porqué ni adónde.

La vida, entonces, vuelve a reencontrarse con lo que fue su origen,
su semilla, la medida de todos sus fracasos, el hueco donde caben nuestros miedos
y al que se ajustan nuestras esperanzas.

Y dando por supuesto que las cosas sean así, tan crudas y tan frágiles,
dime qué hacemos tú y yo aquí parados, soportando el embate de la nada,
el azote que nunca merecimos o ese dardo llamado indiferencia o mala suerte o época difícil.

Dime, aunque tengas que mentirme un poco, que no estamos perdidos,
que aún hay grietas por las que puede entrar algún consuelo,
que esto no es otro de esos callejones sin salida y sin luz donde espantarnos,
donde perder la fe y ganar el llanto.

Convénceme, prométeme la vida.

Amalia Bautista, retirado daqui

domingo, 22 de abril de 2012

Os mais-velhos

Um viajante é o quê?, num é aquele que vem de mais longe? Se você vem de longe, quantos caminhos é que você cruzou, quantas pessoas e o mundo delas, quantas visões você viu, quantas magias? O tempo, avilo, o tempo é essa estrada comprida que eu te falo, e quem vem de longe sempre já tropeçou em mais pedras e enfrentou mais lacraus. Mentira?

Ondjaki, Quantas Madrugadas Tem a Noite, Caminho, p. 154.

Parque das Termas da Curia, Anadia

terça-feira, 3 de abril de 2012

Do que nada se sabe

A lua ignora que é tranquila e clara
e não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
ao abstracto xadrez como essa mão
que as rege. Talvez o destino humano,
breve alegria e longas odisseias,
seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
e truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, A Rosa Profunda

Fernando Botero, Male Torso | Centro das Artes Casa das Mudas, Calheta, Madeira

quarta-feira, 28 de março de 2012

Há horas assim


Talvez seja isto que te impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso.

Hermann Hesse, Siddhartha, Casa das Letras, p. 148.


terça-feira, 20 de março de 2012

Primavera!

Ponte de Lima

Foi com esta fotografia que concorri pela primeira vez a um concurso fotográfico, patrocinado por uma associação limiana. Não fiquei em primeiro lugar. Não fiquei em segundo. Na verdade, não ganhei a t’shirt que estava destinada às dez melhores fotografias. A minha mana, consoladora, diz que foram cunhas. O meu amor-próprio concorda com esta teoria :))

De todos os modos, continuo a gostar muito dela. Recorda-me dias de liberdade e lentidão, exalta a imaginação e o colorido. Faz-me sorrir.

Hoje, pareceu-me um bom mote para vos desejar uma óptima Primavera. Com maiúscula, naturalmente.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Ecpirose

Em 2008, Umberto Eco dizia:

Porque nunca como agora três dos elementos primordiais estão ameaçados: o ar, assassinado pela poluição e pelo anidrido carbónico; a água, que, por um lado, se empesta e, por outro lado, se apresta a faltar cada vez mais. Está a triunfar apenas o fogo, sob a forma de calor que seca a Terra, perturbando as estações, e que, derretendo os gelos, convidará os mares a invadi-la. Sem nos darmos conta, caminhamos para a primeira e verdadeira ecpirose. Enquanto Bush e a China recusam o Protocolo de Quioto, caminhamos para a morte pelo fogo – e pouco nos importa que, depois do nosso holocausto, o Universo se regenere, porque não será o nosso.

Umberto Eco, Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais, Gradiva, p. 90.

[Em Dezembro passado, o Canadá abandonou o Protocolo de Quioto, juntando-se aos EUA e à China que sempre recusaram a sua assinatura, apesar de constituírem os dois países com emissões mais elevadas de gases com efeito de estufa. Nessa altura, a China considerou “lamentável” a decisão canadiana (???!!!!). Infelizmente, lamentaremos muito mais.]

segunda-feira, 5 de março de 2012

Da beleza

A beleza não é uma invenção humana.

Saul Bellow, Herzog, Biblioteca Sábado, p. 16

Praia Norte, Viana do Castelo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Chuva

O sol mantem-se radioso e a chuva continua a não dar qualquer sinal. Para mim, seria uma perfeição de inverno, não fossem as notícias que se vão sucedendo: as culturas em perigo, as produções ameaçadas, as barragens que se esvaziam, populações, como a de Bragança, que temem pela água potável.
Perante este cenário, resta esperar que ela nos conceda umas visitas regulares, nos tempos mais próximos. E, aí, até eu farei coro com o Gene Kelly: I've a smile on my face/ I walk down the lane/ With a happy refrain/ Just singin'/ Singin' in the rain.

Adornada por uma noite de chuva outonal, no quintal da mãe

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Da culpa


(…) a culpa, porém, tanto a comprovável como a escondida, ou aquela que apenas se suspeita, essa fica. Faz tiquetaque sem parar, e mesmo nas viagens a nenhures lá está ela no seu lugar, à espera. Recita a sua pequena sentença, não teme repetições, faz-se esquecer, por longos períodos, magnânima, e hiberna em sonhos. Permanece como sedimento, não pode ser removida como uma mancha, sorvida como uma poça. Aprendeu desde cedo a procurar refúgio, confessada na concha de um ouvido, a tornar-se mais pequena do que pequena, num nada, fazendo-se passar por prescrita ou há muito perdoada, mas está afinal, assim que a cebola desaparece camada após camada, inscrita nas camadas mais novas: às vezes com letras maiúsculas, outras com frase subordinada ou nota de rodapé, às vezes é claramente legível, outras ainda aparece em hieróglifos que, quando muito, podem ser decifrados a custo.

Günter Grass, Descascando a Cebola – Autobiografia 1939-1959. Casa das Letras, p. 33.

[Neste livro, o autor assume ter pertencido à Juventude Hitleriana e às Waffen-SS, confissão que, à data, foi causadora de grande polémica. Paralelamente a uma incursão por uma Alemanha devastada pela guerra, este livro é também uma incursão pela vida interior de um homem perseguido pela culpa, pelo constante exercício da justificação, pela busca (infrutífera?) de expiação.]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma coisa é necessária

  
Uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo difícil
de sem-abrigos e desterrados:

Fixares residência em ti.

Entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

Para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.

Hans Børli, 1974 [retirado daqui]

Catedral da Sagrada Famíla, Barcelona

sábado, 14 de janeiro de 2012

Azul

- Quero concentrar-me em algo de inofensivo que exista no mundo.
- Estás a falar de que mundo? Aqui em baixo não há nada de inofensivo.
- Claro que há. O azul. Esse não magoa ninguém.

Toni Morrison, Beloved, Publicações D. Quixote, p. 234.

Palácio da Brejoeira, Monção

domingo, 20 de novembro de 2011

Duplicidade

A grande maioria dos homens é obrigada a uma duplicidade constante, uma duplicidade erigida em sistema. Não é fácil, sem se dar cabo da saúde, aparentarmos, dia após dia, o contrário daquilo que sentimos realmente, deixarmo-nos crucificar por aquilo que não amamos, regozijarmo-nos com aquilo que nos entristece. O nosso sistema nervoso não é uma expressão vã ou uma invenção. É um corpo físico composto de nervos. A nossa alma situa-se no espaço e implanta-se em nós como os dentes nos maxilares. Não podemos violentá-la impunemente.

Boris Pasternak, O Doutor Jivago, Colecção Mil Folhas-Público, p. 510

Monção