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sábado, 2 de junho de 2012

O diagnóstico do Dr. Epaminondas

Ilustração de Evelina Oliveira

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

Carlos Drummond de Andrade. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1988.

sábado, 19 de maio de 2012

Velas e valsas

Henri de Toulouse-Lautrec, La Goulue and Valentin, Waltz



O navio desistiu de navegar contra a corrente e aliou-se ao vento e às águas; as suas velas estão agora enfunadas e ele avança, orgulhoso, sobre as ondas condescendentes. A sua velocidade é fruto do seu esforço e dos seus méritos ou dos méritos de forças externas? (...) A mulher que valsa abandona-se nos braços do seu hábil parceiro. A maravilhosa leveza da dança vem dela ou dele?

Karen Blixen, Sombras no Capim, RBA, p. 96.

domingo, 15 de abril de 2012

Florbela



É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...

Florbela Espanca, Poesia Completa, Bertrand, p. 337.

[A propósito do filme Florbela, realizado por Vicente Alves do Ó, com um notável desempenho de Dalila Carmo, a encarnar aquela que um dia terá afirmado não saber viver.]

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um sítio onde pousar a cabeça


Há um espaço enorme, uma imensidão entre nós e as palavras, que é ocupado por coisa nenhuma. E quando nós tentamos ultrapassá-lo, só num acto de amor é que é possível ir ao encontro delas e deixar que elas venham ao nosso encontro. (…)
A escrita para mim é mais do que respostas, é interrogações. Mais do que para afirmar a minha identidade, é para a procurar.

A voz de Manuel António Pina tecendo palavras sobre as palavras e a escrita, num documentário recentemente exibido na RTP 2. O título deste é extraído de um dos seus poemas, que aqui vos deixo, porque há palavras que pedem para serem partilhadas.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Nunca recordaremos haber muerto


Paula Rego, Tempo Passado e Presente (1990)
Tanta paciencia
para ser tuvimos
anotando
los números, los días,
los años y los meses,
los cabellos, las bocas que besamos,
y aquel minuto de morir
lo dejamos sin anotación:
se lo damos a otro de recuerdo
o simplemente al agua,
al agua, al aire, al tiempo.
Ni de nacer tampoco
guardamos la memoria,
aunque importante y fresco fue ir naciendo;
y ahora no recuerdas ni un detalle,
no has guardado ni un ramo
de la primera luz.
(...)

No tienes más recuerdo que tu vida.
                                                                                   
Pablo Neruda, Plenos Poderes (1962)


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A língua é a casa onde o homem habita



- Mamã, o que é a língua?
- A língua é a casa onde o homem habita.

Jean-Luc Godard, Deux ou Trois Choses que Je Sais d’ Elle (1967).





Há tempos, participei numa formação sobre as regras do novo acordo ortográfico. O formador afirmava que a grande dificuldade na aplicação das novas regras era de natureza perceptiva (ou, como boa formanda, deverei escrever “percetiva”). Não poderia discordar mais e a frase na boca da personagem de Godard fala por mim. Posso dizer, inspirando-me nela, que mantenho a nítida impressão de que, nos últimos tempos, me arrombaram a porta de casa e perpetraram um sério furto. E os efeitos de um furto doloroso nunca são unicamente perceptivos, senhor formador.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Um mundo novo


O Novo Mundo, 2005 | Escrito e realizado por Terrence Malick

Vamos começar de novo
Tudo do princípio
Aqui, as bênçãos da natureza são concedidas a todos
Ninguém ficará pobre
Aqui, há boa terra para todos, apenas à custa de trabalho
Criaremos uma verdadeira comunidade
Trabalho árduo e confiança em nós próprios serão a nossa virtude
Não teremos proprietários a extorquir-nos rendas exorbitantes ou o fruto do nosso trabalho
Ninguém se alimentará descuidadamente daquilo que o amigo conseguiu merecidamente
Ou roubará aquilo que ele teve a virtude de armazenar
Os homens não se explorarão uns aos outros.

[Um mundo novo? Talvez não. Repensar seriamente este que temos? Com certeza.]

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rompendo passagens

Fernand Léger, Les Trapézistes, 1954

Têm razão os cépticos quando afirmam que a história da humanidade é uma interminável sucessão de ocasiões perdidas. Felizmente, graças à inesgotável generosidade da imaginação, cá vamos suprindo as faltas, preenchendo as lacunas o melhor que se pode, rompendo passagens em becos sem saída e que sem saída irão continuar, inventando chaves para abrir portas órfãs de fechaduras ou que nunca a tiveram.

José Saramago, A Viagem do Elefante, Caminho, p. 223

sábado, 16 de julho de 2011

Faculdades superiores

Mark Chagall, Les Amants au Ciel Rouge, 1950

Se uma sociedade contasse só com a inteligência como seu eixo motor, não mudava nunca e perecia decerto por falta de mobilidade dos seus desejos e das suas afeições. Os ímpetos irreflectidos, os movimentos de cólera ou de alegria súbita, as demonstrações de ternura que contagiam toda a gente, o estado romântico em suma, têm uma grande audiência e um grande favor nos meios que percebem quanto as faculdades inferiores contribuem para a transformação das situações.

Agustina Bessa-Luís, Memórias Laurentinas, Guimarães Editores, p. 222

domingo, 19 de junho de 2011

A vida dos outros

Paula Rego, À Janela, 1997

Parece haver a necessidade de saber o que a vida dá aos outros, ou de saber como é para os outros a vida; pensar nela e falar dela. Uma necessidade de viver fora, nessa curiosidade pela vida dos outros, ou uma forma de preencher o vazio da nossa, distrair-nos dos incómodos, dos trabalhos que nos dá. E assim passar o tempo. Aconteceu uma desgraça? Um caso estranho? Porquê? Como se explica? Corre-se a ver, a ouvir. Ah, é assim? Não, qual quê! Assim não pode ser. Como então? E quando nada acontece, o aborrecimento, o peso das ocupações habituais. E a angústia de ver, como vê agora a senhora Léuca, morrer lentamente nas vidraças a luz do dia.

Luigi Pirandello, Pena de Viver Assim, Biblioteca Editores Independentes, pp. 25-26

terça-feira, 14 de junho de 2011

"... da Vida"


Ama
Se não amares, a tua vida passará num segundo
Ajuda os outros
Maravilha-te
Tem esperança

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O mundo é uma Bolsa

Pieter Bruegel, o Velho, A Parábola dos Cegos, 1568

O mundo é uma Bolsa. E, portanto, o jogo político, que tinha uma dimensão própria, é hoje o subproduto de um jogo muito mais profundo e radical, que é o das forças de transformação da sociedade, que são de ordem económica, financeira e científica. São elas que comandam tudo o resto. A política, nas sociedades que se querem democráticas, é apenas a maneira de utilizar esses meios da maneira mais aceitável. Mas o ímpeto, o motor da civilização em que estamos, não tem nada de democrático em si mesmo. É uma força cega, como se fosse uma força da natureza, ainda que seja humana. (…) Tudo passa pelos fins da máquina produtiva mundial, que se torna mais abstracta ainda por ser, fundamentalmente, do tipo financeiro. E é uma máquina que se vai destruindo a si própria.

Excerto de entrevista ao Professor Eduardo Lourenço, publicada integralmente aqui.


domingo, 22 de maio de 2011

Blessed



Blessed is the mind with something to occupy it other than its own dissatisfactions.

Susan Sontag, Reborn, Early Diaries 1947-1963,
Penguin, p. 305.


Fotografia de Annie Liebovitz

sábado, 7 de maio de 2011

Jogos do espírito

Pablo Picasso, O Sonho, 1932

À cabeceira dos doentes, acontecera-lhe muitas vezes ouvir contar sonhos. Também ele tivera os seus. As pessoas contentavam-se, geralmente, em extrair dessas visões presságios às vezes certos, dado que revelam os segredos daquele que sonha; ele, todavia, pensava para consigo que tais jogos de espírito entregue a si mesmo tinham, sobretudo, a possibilidade de revelar a maneira como a alma se apercebe das coisas. Punha-se a enumerar as qualidades das substâncias que via em sonhos; a leveza, a impalpabilidade, a incoerência, a total liberdade em relação ao tempo, a mobilidade de formas de uma pessoa, que faz que cada qual seja muitos, e vários se reduzam a um só, o sentimento quase platónico da reminiscência, o sentido quase insuportável de uma necessidade.

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, Planeta de Agostini, p. 194

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aprender

Na língua chinesa, dois símbolos representam a palavra “aprender”. O primeiro significa “estudar” e é composto de duas partes: um símbolo que significa “acumular conhecimento” é colocado sobre outro que representa uma criança parada em uma porta, reflectindo, protegida e apoiada. O segundo símbolo significa “praticar constantemente” e mostra um pássaro desenvolvendo a capacidade de sair do ninho, experimentando. O símbolo de cima representa o voo, e o de baixo, a juventude.
(Senge, 2005)

[Encontrei este excerto na parte introdutória de uma tese de doutoramento. Achei extraordinário!]

quarta-feira, 27 de abril de 2011

As três palavras mais estranhas



Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba pertence já ao passado.


Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.


Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhuma não-existência.


Wislawa Szymborska

domingo, 20 de março de 2011

Da perda

Amores Perros (2000), de Alejandro González Iñárritu

No final deste inquietante filme surge a frase que poderá condensar todo o seu enredo, bem como uma parte indesmentível das nossas vidas:

Porque também somos aquilo que perdemos.

domingo, 6 de março de 2011

Black Dog


No filme O Discurso do Rei, Winston Churchill surge como um personagem secundário. Secundário no filme, mas centralíssimo na vida real, na sua e na de muitos. E ao ver a luta do rei contra a gaguez, não me pude inibir de pensar na luta do grande estadista contra a depressão, visita recorrente ao longo de toda a sua vida. Churchill denominava-a “Black Dog”. Mas, como em muitas outras lutas que enfrentou, também nesta, certamente dura e impenitente, poderemos concluir que a sua vida foi um exemplo de superação. E dou por mim a pensar se, por vezes, os seus famosos dedos em riste não representariam um certo triunfo privado sobre um indesejado cão negro.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Alegria

La Educación de las Hadas (2006) de José Luis Cuerda

La alegría es más escasa, más difícil y más bella que la tristeza. Más que una necesidad natural, se ha convertido para mí en una obligación moral.