sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Aurora boreal


Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

António Gedeão, Obra Poética

11 comentários:

  1. António Gedeão um autor maior.

    Muito a propósito do actual momento.

    Um beijo, SARA.

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  2. E porque é preciso sorrir... aí vai um sorriso.

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  3. Como poderia não sufocar com tanta janela???? Quanto mais nos abrirmos ao exterior, maior permeabilidade teremos para ser e sentir tudo o que o poeta refere neste belo poema...Umas vezes sufocamos, outras libertamo-nos e sonhamos e vivemos e voltamos a (re)nascer!!!
    As tuas janelas estão bem lindas, Sara...
    Para quando será a exposição de fotografia?
    Quero estar na fila da frente... lol
    bjs
    BFDS

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  4. Ah, esqueci de acrescentar que o pormenor da gaiola por entre tanta janela dá que pensar!!!
    bjs ao quadrado

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  5. Que maravilha! Acho que vou "roubá-lo" para o meu blogue, com a devida citação, claro...:)

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  6. Gosto imenso da poesia do A. Gedeão.
    A Gulbenkian editou recentemente um Diário de AG.
    Bjs

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  7. António Gedeão combinava, como ninguém, a sensibilidade da poesia e a racionalidade da ciência. Aprecio muitíssimo tudo quanto lhe conheço e considero-o, sempre, uma magnífica opção.
    Beijinho :)

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  8. Grande ser humano, esse António Rómulo Gedeão de Carvalho, que nos deixou, acima de tudo, palavras para absorver, repensar, moer devagar.

    Dele prefiro quase tudo e deixo aqui uma estrofe do "Poema do Homem Só" que algo tem a ver com essas maravilhosas janelas fotografadas (incluindo a gaiola fechada com papagaio de madeira e tudo):

    "(...)
    Quem sente o meu sentimento
    sou eu só, e mais ninguém.
    Quem sofre o meu sofrimento
    sou eu só, e mais ninguém.
    Quem estremece este meu estremecimento
    sou eu só, e mais ninguém.
    (...)"

    Um abraço.

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  9. Que delícia passear nesses blogues, e ficar a par de tantos autores, como esse, a quem eu ainda nao conhecia. Belo poema!

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  10. Grande, enorme poeta que não deixo de ler!Como eu gosto do sorriso sempre meio escondido entre cada verso, e toda a vida ali, aberta à nossa sensibilidade.
    Obrigada, Sara

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  11. Escrever poesia assim é coisa que não está ao alcances de todos. Por isso é assim de imenso.
    Gostei muito
    Um grande abraço, querida amiga

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