sexta-feira, 25 de março de 2011

Desocultação

"A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África continua a praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.

A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é uma disposição natural não há sequer que lhes perguntar se aceitam os encargos ou sob que condições. Os cortes nas despesas sociais do Estado atualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com deficiência). Se os doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível com desejar mais vivos. "

Crónica completa de Boaventura Sousa Santos, aqui.

12 comentários:

  1. Mais do que palavras, porque basta ter-se Mãe, esposa, irmã, filha, ... para compreender as palavras de B.S.Santos, um poema de Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera", com tradução de Manuel Simões, que "pedi emprestado" ao Citador (http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200810270605), curiosamente denominado "A Mulher Inspiradora":

    Mulher, não és só obra de Deus;
    os homens vão-te criando eternamente
    com a formosura dos seus corações,
    e os seus anseios
    vestiram de glória a tua juventude.

    Por ti o poeta vai tecendo
    a sua imaginária tela de oiro:
    o pintor dá às tuas formas,
    dia após dia,
    nova imortalidade.

    Para te adornar, para te vestir,
    para tornar-te mais preciosa,
    o mar traz as suas pérolas,
    a terra o seu oiro,
    sua flor os jardins do Verão.

    Mulher, és meio mulher,
    meio sonho.


    Um abraço.

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  2. É tudo verdade e tudo terrível. Noutros países apoiam-se as mulheres que ficam em casa com os filhos. Em Portugal, espera-se que consigam trabalhar, tratar da casa, tratar da família e qualquer outra coisa que seja necessária. É uma igualdade distorcida...

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  3. Isso. E na versão 'softcore' que nos toca, há ainda as ofensivas diferenças salariais, a discriminação em lugares de chefia, os despedimentos em caso de gravidez, etc., etc. Trazes uma discussão pertinente; e Boaventura Sousa Santos é, sem dúvida, um bom porta-voz. Urge incansavelmente denunciar e combater. Junto-me a ti nesta lembrança.

    Beijinho grande e bom fim-de-semana!

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  4. O BSS é alguém que aprendi a admirar ao longo dos anos!
    Um tipo de uma coerência rara e que põe sistemáticamente o dedo na ferida!
    À esquerda,,,, sempre à esquerda!

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  5. A tua lembrança (sempre pertinente) sobre as desigualdades e as iniquidades no mundo vigente fez-me lembrar um discurso de BSS que tenho em livro e que diz o seguinte:
    "É esta a ambiguidade e a complexidade da situação do tempo presente, um tempo de transição, síncrone com muita coisa que está além ou aquém dele, mas descompassado em relação a tudo o que o habita".
    É este o "paradigma dominante" do mundo actual, desfasado no tempo e no coração das suas gentes...
    Sei que vou alongar-me, mas vou contar o testemunho duma jornalista que esteve na Irão em serviço...
    Dizia ela ter ficado muito surpreendida pela evolução de alguns costumes, nomeadamente, o facto de ter presenciado a mulher ir à frente do marido numa passeata pelas ruas... a jornalista veio a saber mais tarde que o terreno estava repleto de minas...por isso, o marido guardava alguma "distância de segurança" preterindo para a mulher o seu lugar na dianteira...
    Ocorre-me a palavra triste para terminar o meu coment.
    bjs Sara

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  6. Desde que mundo é mundo, homens e mulheres vivem em desigualdade, sendo que homem e mulher sao a própria representação de Deus. Em tese então nao deveríamos viver assim nao é.
    Escolheram o capitalismo selvagem, onde tudo vai pelo "custo/benefício" e aí dá nisso. E viva essa combinação harmônica! cof cof rs

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  7. Sara
    Amiga foi Verdade
    O Professor Realçou o meu livro.. Sporting em Poesia..
    Fiquei muito vaidosa e senti a força da Televisão...

    Goste do que li. Mas não seria de outra maneira pois sou admiradora de Eugénio de Andrade ...
    Um beijinho

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  8. Sara,
    É o que se chama pôr o dedo na ferida. Mas há mais, muito mais...

    Beijo :)

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  9. Tanto trabalho ainda a fazer, tanta luta a travar, até que esse crime da violência contra as mulheres termine neste mundo.
    É preciso denunciar sempre, todos os dias - o teu post é mais um passo na nossa luta diária!

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  10. Diagnóstico correcto, actual e isento intelectualmente.
    Em pleno Sec. XXI é inaceitável que no Ocidente, sobretudo no Hemisfério Norte haja tanta violência e tão focada nas mulheres e crianças.
    Dir-se-ia haver uma regressão a uma surpreendente barbárie.
    Pensar apenas na perda de valores, na regressão do papel da Igreja, na desautorização do Estado, todos eles seriam indutores insuficientes para justificar tanta violência, tanta falta de respeito pela propriedade, tanto descaramento para não respeitar contratos e a condição humana naquilo que mais a deveria dignificar: respeito pela diferença de opinião, de postura e de ver e encarar a via.
    Mas não.

    Boa noite, Sara.

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  11. So true...a conta disso, quantos esgotamentos e depressoes nao surgem...organizar a casa, executar tarefas domesticas, cuidar de novos, de velhos e de enfermos, mais a carreira...As mulheres portuguesas sao umas heroinas, das que mais trabalham na Europa, entre familia e emprego.
    Contudo, prefiro o sistema holandes. Acho mais saudavel, mais humano. A mulher tem a opcao de trabalhar em part-time, se assim o entender. Ha quem trabalhe um dia, ou dois, ou tres, ou quatro, depende da situacao. Ganham menos, claro. O orcamento familiar e mais reduzido, ha luxos que se deixam. Mas ganham todos. As criancas holandesas sao consideradas as mais felizes da Europa. Os pais sao muito presentes. Os horarios de trabalho sao respeitados. As 16h30, comeca-se a sair dos empregos (entraram as 8 horas) para estar mais tempo com os meninos. As mulheres que ficam em casa nao sao vistas como tontas e burras. Muitas vezes, estao a frequentar cursos e workshops de valorizacao pessoal: linguas, pintura, fotografia, ceramica, name it. Ha muito voluntariado tambem desenvolvido pelas mulheres.
    Os holandeses investem menos em coisas e mais em viagens, campismo, caravanismo, caminhadas. ciclismo. Evitam ostentacao de riqueza (Calvinismo). O mais importante e a familia ter um modo de vida balanceado. Prescinde-se, claro, da empregada domestica, do jardineiro, de ter dois carros, grandes festas de aniversario (cafe e bolinho e esta no ir) e nao contratas ninguem para obras de melhoria em casa, fazes tu ( se conseguires arranjar quem faca, custa muito, muito caro).
    Em casa, todos colaboram, sao responsaveis, centram-se no essencial e a aproveitar o melhor que a vida tem:os momentos que vivemos juntos.
    Os homens ajudam imenso.
    Em media, um casal tem tres filhos. Os miudos nao sao tratados como bonecos de porcelana. Ainda mal nasceram, ja andam de bicicleta com os pais, aos 16 anos trabalham nas ferias (mesmo que os pais tenham dinheiro), aos 18 saem de casa.
    E mesmo que nao tenhas filhos, nao es mal vista se decidires ficar em casa. Ate porque estas dao muito trabalho. Geralmente, uma casa tem dois jardins, mais escadas ingremes, mais arrecadacao, etc. Ha tambem muitas mulheres a trabalhar a partir de casa como freelancers ou no voluntariado, como ja disse: em escolas, em lares de idosos, a ensinar holandes, etc.
    O importante e que escolhas o que te faz feliz.
    Esqueci-me de dizer que as mulheres se dedicam muito a actividades criativas:fazer postais, coser, etc... posso indicar-te blogues muito bons.As vezes, sinto-me uma analfabeta funcional. Nao sei fazer nada disto. Hoje comprei o meu primeiro kit de postais. A ver se aprendo alguma coisa. Tenho de ir. Bjs.
    Posso pedir-te o teu mail? Bjs!!

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  12. Boa nota.

    Temos que lutar contra o sistema que oprime os homens e as mulheres

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